02/07/2015

Dados oficiais e assessorias nem sempre ajudam na cobertura de segurança pública

Por Helena Carvalho Mega

Foto: Alice Vergueiro
Jornalistas que cobrem segurança pública costumam lidar com as assessorias de imprensa mais ‘complicadas’. Isto porque elas estão povoadas de veteranos, profissionais com experiência na área que conhecem a fundo o funcionamento dos veículos e a forma de trabalho e investigação de repórteres. E por isso, possuem facilidade em dificultar o acesso e a visualização de dados quando convém ao assessorado.


Para não cair nessas armadilhas, o cofundador do portal Ponte André Caramante deu várias dicas de apuração para jornalistas que já trabalham ou pretendem atuar no setor, durante palestra no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. O editor do portal de notícias R7, Álvaro Magalhães, palestrou ao lado de Caramante, com mediação do Editor Executivo do portal dos Jornalistas Wilson Baroncelli.

Além de falar sobre a necessidade de estar na rua, presente nos eventos e em contato com os envolvidos para humanizar os relatos, o editor da Ponte ressaltou a importância de uma apuração que não se restrinja aos dados oficiais para apontar falhas no sistema público de segurança.

Este tipo de cobertura é um grande desafio em todo país, e no estado de São Paulo não é diferente. Caramante afirmou que existem contratos milionários sendo firmados dentro da comunicação da secretaria de segurança pública de São Paulo e divulgados de maneira camuflada pelo governo, sendo que a equipe de comunicação do órgão é “maior do que qualquer redação de jornal”, ou seja, não há desculpas quanto a falta de recursos ou pessoal.

Outro exemplo de ‘disposição para atrapalhar’ dado por André no encontro foi uma entrevista do secretário estadual de Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes, para quem “jornalista não entra em presídio para entrevistar ninguém enquanto estiver no cargo”.

O editor do R7 também reconheceu que as barreiras ao acesso à informação na cobertura da área criminal não são poucas. Em sua visão, a chave para humanizar aqueles envolvidos no crime seria simples: “Vá ouvir um ladrão de carro”. Ou seja, usar os próprios criminosos como fonte. Tal contato direto com aqueles envolvidos em delitos seria, de fato, a maior fonte do jornalista, considerando que especialistas da área geralmente não têm essa experiência.

Para Álvaro, outra tarefa para os jornalistas que cobrem a área seria acompanhar o Diário Oficial, no qual há muita informação que passa “batida” pela mídia. Notícias como promoções e prisões de policiais, além de estatísticas, como o número de policiais mortos, são alguns dados oferecidos pelo documento que podem auxiliar no exercício da profissão. Estudos do número de inquéritos abertos em delegacias e do índice de produtividade dos exames necroscópicos, por exemplo, também podem ser estratégicos para a investigação jornalística.

Outra fonte importante seria a FUNAP (Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”), também vinculada à secretaria do estado de Administração Penitenciária, e que presta serviços para a inclusão social de presos e egressos.

Uma ressalva, no entanto, foi feita por Caramante: há uma distorção de, em média, 25% do real nos dados públicos fornecidos pelo Estado. Assim, para o cofundador da Ponte, o processo de humanizar um relato começaria com a ida até o local do crime para que pessoas fossem ouvidas. Para ele, “jornalista tem que estar na rua, sair do telefone”.

Na mesma linha, Álvaro sugeriu que fazer com que os envolvidos na prática criminal falem de maneira prolongada quando entrevistados pode tornar coisas simples em coisas importantes. Afinal, “quando você está entrevistando um sujeito que passou pelo cativeiro, ele pode te fazer identificar coisas que estão mudando no universo do crime”.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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