02/07/2015

Investigação jornalística revelou segredo de 35 anos da ditadura

Por Pâmela Ellen

Foto: Alice Vergueiro
Foram 12 anos de investigação para que a jornalista Daniela Arbex conseguisse reconstituir os últimos passos do guerrilheiro Milton Soares de Castro no livro "Cova 312". Torturado e assassinado em 28 de abril de 1967, nos porões da Penitenciária Política de Linhares, a história de Milton continuava incompleta 35 anos depois da sua morte.

Milton era pintor, largou a vida humilde que tinha em Porto Alegre para perseguir o ideal de mudar o Brasil depois do golpe militar de 64. Se aliou à guerrilha na Serra do Caparaó (MG), financiada por Cuba e Brizola, foi preso e levado à prisão de Linhares, onde não saiu com vida. "Ele foi o mais valentes dos guerrilheiros. Foi o primeiro a ir para a serra e o último a sair de lá depois que o exército cercou o local", disse Daniela.

O atestado de óbito dizia que Soares cometera suicídio por asfixia. Porém, seu corpo nunca foi devolvido à família para que houvesse um enterro apropriado.

Em 2002, motivada por uma notícia sobre o requerimento de indenização dos militantes torturados na Penitenciária Política de Linhares, começou a procurar uma história diferente para contar e se deparou com a de Milton Soares, único homem que morreu dentro daquela prisão e que, até o momento em que ela iniciou a reportagem, não se tinha informações sobre o paradeiro do seu corpo.  

Daniela decidiu, então, que iria investigar as causas da morte do guerrilheiro. Encontrou arquivos que mostravam que o cadáver fora enterrado na cova 312, na cidade de Juiz de Fora (MG). Além disso, ao falar com amigos e familiares do guerrilheiro, descobriu que, no dia em que ele morreu, havia sido retirado da cela para dar depoimento e não voltou mais. No Guia para Enterramento a data da morte estava rasurada, o local do enterro modificado, várias informações eram contraditórias e ainda informava a contratação de uma cova rasa por um militar da reserva.

Para reconstituir os últimos passos de Milton na Penitenciária de Linhares, a jornalista tirou uma licença de sete meses na redação do jornal "Tribuna de Minas" para poder viajar e entrevistar os personagens chaves da investigação. Preocupada com os detalhes, para ela estar naquela prisão era fundamental. "Queria sentir a atmosfera e o cheiro do lugar. Este é um procedimento muito importante na investigação jornalística, estar no local onde os fatos ocorreram", disse.

De lá, Daniela viajou até o Rio de Janeiro onde conseguiu entrevistar os peritos que realizaram a necropsia do corpo do guerrilheiro e assinaram o seu laudo de morte. "Adorei que um deles se passou por louco, disse que não sabia nem quando foi a ditadura mas continua fazendo autópsias, mas o outro confirmou o assassinato", conta Arbex. Para conseguir esse tipo de confissão, a jornalista ensina que os repórteres devem ter paciência e estar dispostos a ouvir as pessoas, para que elas se sintam à vontade. 

A investigação se intensificou quando Daniela solicitou o inquérito ao Tribunal Superior Militar (TSM). Analisando os documentos, encontrou diversas contradições nos depoimentos das testemunhas. Havia, por exemplo, a informação de que Milton tinha se enforcado com uma tira de pano de 30 centímetros amarrada a uma torneira da cela. "Recortei uma tira de pano no mesmo tamanho e coloquei em volta do meu pescoço. Eu, que tenho 1,58 metro, não consegui dar a volta com o pano no meu pescoço. Imagina um homem de 1,80 metro", relata.

Para realizar essa reportagem de fôlego, Daniela percorreu todos os caminhos de uma reportagem investigativa. Para ela, o trabalho de um jornalista exige muita dedicação. É essencial sair à rua, ter persistência para conseguir acesso a documentos restritos e insistir nas entrevistas com fontes importantes, para que eles confrontem os dados que temos das nossas próprias apurações.

No "Cova 312", Daniela mostra a omissão que existe até hoje sobre os crimes cometidos durante os 21 anos do regime militar. "A força da verdade é avassaladora", afirma. "Quando não se tem um corpo para velar é como se a pessoa morresse todos os dias".

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário