23/06/2016

“A gente não quer saber de autoridades, as autoridades são as pessoas comuns”, diz Caco Barcellos


Por Karina Balan

Destaque no dia de abertura do 11º Congresso da Abraji, o jornalista Caco Barcellos dividiu um pouco da sua experiência como repórter no painel "Profissão Repórter:10 anos". Na manhã desta quinta-feira (23), em um auditório lotado, ele e o companheiro Caio Cavechini, editor-executivo do programa, além do repórter e ex-produtor do "Fantástico", Guilherme Belarmino, falaram das origens e do significado do programa que se consolidou como uma referência em reportagem na televisão.

Fotos: Alice Vergueiro
"Eu sonhava em um dia fazer um programa que não tivesse as coisas que eu não gosto, pensando nas brechas da cobertura da mídia como um todo", conta Caco, sobre o surgimento do programa em 2006. Considerado um dos melhores jornalistas da TV brasileira, ele começou a carreira como repórter na década de 1980, passando por veículos da imprensa alternativa até chegar à televisão. O "Profissão Repórter" estreou como um  especial do "Globo Repórter", e hoje já ultrapassa a marca de 270 edições.


Cada episódio produz cerca de 25 horas de gravação, das quais apenas 30 minutos são utilizados. Durante sua existência, são mais de 7 mil horas de material bruto, o que equivale a nove meses de imagens. Para Caco Barcellos, o diferencial do programa é o olhar plural sobre um mesmo tema, em que a matéria-prima para uma boa reportagem é a vivência na rua. "A gente não quer saber de autoridades falando nas nossas reportagens. As autoridades são as pessoas comuns. As pessoas sempre trazem grandes histórias, depende de você querer ouví-las".

Guilherme comentou também sobre a importância de desconfiar das versões oficiais das notícias. "A gente tenta um enfoque diferente sobre casos nos quais as pessoas já ouviram quase tudo. Tem sempre a versão oficial do que aconteceu, e a às vezes a gente descobre anos depois que existe uma lacuna". Caio pontua também a mudança de comportamento do público com a chegada de novas plataformas. "Há um tempo atrás as pessoas enxergavam a notícia como um espelho da realidade, e hoje as pessoas sabem que é só uma versão do que aconteceu", diz.


O formato do programa também passou por mudanças ao longo dos anos, e hoje é a videorreportagem, com o repórter e sua câmera na mão. Caio Cavechini ressaltou a independência do repórter na execução do trabalho. "A compartimentalização do trabalho deixa o jornalista menos dono daquilo que vai ao ar, e o Caco trouxe isso de que o repórter produz e edita a própria reportagem, tem um 'quê' de artesanal na forma de fazer", comenta.

Em um momento de polarização política, o programa preza pela ausência de opinião. De acordo com Caco Barcellos, um acontecimento que não é manchete às vezes é muito mais importante do que o furo jornalístico. Na avaliação dele, as reportagens do programa são sempre inéditas. "A rigor, o Profissão Repórter é exclusivo, já que a gente vai aonde os outros não vão e onde a mídia não cobre, principalmente as regiões mais pobres", pontua.


Para encerrar sua fala, Caco disse não ter vergonha de nada do que fez ao longo de sua carreira e fez um apelo aos jovens jornalistas: "Estamos em um país extremamente desigual. Pense duas vezes por qual lado você vai contar sua história". Após o painel, ele participou de uma sessão de autógrafos do livro "Profissão Repórter 10 Anos: Grandes Aventuras, Grandes Coberturas", lançado em abril deste ano. O livro registra os bastidores das melhores reportagens exibidas sob a ótica de Caco e alguns dos 40 jornalistas que já passaram pela equipe.

O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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