23/06/2016

Jornalistas acompanhando exércitos é questionável, afirmam representantes do Médicos sem Fronteiras


Por Phillippe Watanabe


A visão da população que passa por uma crise humanitária sobre o repórter é influenciada pela organização que o profissional acompanha."Não ache que vocês vão para o Afeganistão com o exército americano e todo mundo vai falar o que realmente acontece ali", diz Alessandra Vilas Boas, diretora de comunicação da organização MSF (Médicos sem Fronteiras).
O painel "Como cobrir crises humanitárias" ocorreu na manhã desta quinta (23) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.
As jornalistas Cláudia Antunes e Alessandra Vilas Boas, ambas da área de comunicação do MSF - organização internacional com foco em questões médico-humanitárias -, deram dicas sobre práticas em áreas de crises.
Vilas Boas afirmou que o repórter nas áreas de conflito precisa estar bem informado sobre a situação para entender os interesses envolvidos e, desse modo, o que representa estar acompanhando um lado ou o outro.
Fotos: Alice Vergueiro

Segundo ela, mesmo não existindo posições certas ou erradas, algumas ações poderiam ser evitadas. "Do ponto de vista da organização, jamais vamos nos associar a exércitos. E o jornalista ir com exércitos é questionável."
Para Antunes, a visão sobre um conflito é quase sempre parcial, o que proporciona mais visibilidade para um dos envolvidos. Consciente disto, o jornalista precisa buscar fontes do outro lado.

As representantes do MSF destacaram também a ideia "do no harm" (não prejudique, em tradução livre). Segundo esse princípio, a presença em campo tem impacto direto sobre a vida da população local, por isso, toda ação deve ser cuidadosamente pensada.
A diretora do MSF relata que entrevistar uma pessoa em determinados lugares pode ser o suficiente para colocá-la em risco. "Para mim não existe a 'história a qualquer custo'. Se tiver o mínimo risco para a pessoa com quem estou conversando, já não vale a pena. É preciso haver um equilíbrio", comenta Vilas Boas.
A sensibilidade quanto ao momento foi outro ponto de destaque do painel.
Quando um terremoto ocorre, por exemplo, falar com fontes em locais fechados pode não ser uma boa ideia, tanto do ponto de vista da segurança pessoal, pois outro tremor pode acontecer, quanto pelo recente trauma experimentado pelas pessoas da região.
Vilas Boas e Antunes destacaram que acompanhar e contar as histórias dos indivíduos em situação de crise pode servir como uma forma de alívio para as vítimas, mas que isso não é o suficiente.
"Eu entro no avião, vou embora para minha casa e as pessoas vão ficar aqui nesta situação", afirma Vilas Boas.

O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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