23/06/2016

Jornalistas lançam associação para aprimorar cobertura educacional na imprensa

Por Jeniffer Mendonça

A cobertura especializada em educação é um nicho pouco explorado pelos jornalistas brasileiros. Segundo pesquisa, 99% dos profissionais que cobrem a editoria na grande imprensa não receberam preparação para atuar na área. Foi esse cenário o ponto de partida para o lançamento da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), no painel "Novas e melhores formas de cobrir educação", nesta quinta-feira (23), durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Foto: Alice Vergueiro
O mesa foi composta por Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Antonio Gois, colunista do jornal O Globo e um dos fundadores do projeto, Rodrigo Ratier, editor-executivo da revista Nova Escola e Alejandra Velasco, superintendente do Movimento Todos pela Educação com mediação de Renata Cafardo, da TV Globo e uma das fundadoras do Jeduca.

A ausência de cursos na área durante a formação do profissional e a crise econômica são fatores que influenciam a falta de espaço para se aprofundar o debate sobre o tema, segundo os palestrantes.

 "É necessário entender que a educação é uma ciência e o jornalista precisa ser capaz de entender esses conhecimentos", explica Gois, presidente da Jeduca.

A associação formada por e para jornalistas visa aprimorar a cobertura de educação por meio de guias, matérias, discussões e atendimento aos profissionais em todo o país.

 "As redações estão com cada vez com menos condições de reter talentos e debate sobre educação é fundamental. Nesse vácuo, precisa ter alguém para qualificar o jornalista", conta Gois, que ganhou o Prêmio Esso na categoria em 2012.

A aquisição de informações qualificadas sobre questões educacionais e a leitura e interpretação de dados também são dificuldades para os profissionais. O direcionamento para assessorias de imprensa e resquícios da Ditadura Militar, como as "leis da mordaça", que proíbem que funcionários públicos falem de forma depreciativa do governo em alguns Estados, são alguns dos obstáculos no setor.

Para Cara, a discussão depende da clareza das fontes oficiais e o parlamento é "sensível" para o que sai na imprensa. "Se a fonte que informa o jornalista for superficial, vai influenciar no debate público", ponderou. . 

O coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, por outro lado, enfatiza que a cobertura da imprensa é decisiva para a agenda pública em meio a repercussão de informações via redes sociais. "Há novas formas de comunicação, mas o veículo tem o poder de pautar o governo. Quando conseguimos pautar uma matéria na Agência Brasil, temos uma repercussão maior porque é muito replicada". 

A superintendente do movimento Todos Pela Educação acredita que o debate sobre o tema vem evoluindo com a discussão de rankings educacionais e políticas públicas. No entanto, ela ressalta que é preciso qualificar e ampliar a cobertura do tema. "Temos que deixar de pensar na educação como uma área restrita, e sim como um investimento. É um desafio a interlocução com setores regionais". 

Além disso, com o pouco tempo e espaço para a editoria nas redações, Gois explica a necessidade de acompanhamento cotidiano do tema, visitando escolas, conhecendo e estudando a área. "A experiência de assimilar as políticas públicas na prática é fundamental para enriquecer a matéria. Não é só uma aspa, uma foto bonita, é um aprendizado. Não é só ouvir dois lados." 

PERFIL

Ao revelar em sua tese de doutorado "Jornalismo e jornalistas de educação no Brasil: um olhar sociológico multifocal sobre história, estrutura, agentes e sentidos" que 99% dos profissionais da área não tiveram contato com a área na graduação, Ratier ressalta a ausência de formação específica nas faculdades.

 O editor-executivo da Nova Escola também identificou o perfil dos comunicadores da área: 74% são mulheres e 46% com idade até 30 anos. Os mais jovens representam 27%, sendo 8% com até dois anos na área, enquanto os com mais de 20 anos de carreira são 7%.

Para Ratier, o setor é desprestigiado e dificilmente os jornais destacam uma matéria sobre o assunto. "Em uma entrevista com o ministro de Educação, a equipe dessa editoria é deixada de lado e vão os repórteres de política", afirma.  


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário