25/06/2016

"Para ser repórter especial, jornalista tem que mostrar vocação", afirma Elvira Lobato



Por Ariane Costa Gomes

Homenageada no 
11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, Elvira Lobato contou as dificuldades encontradas em mais de 40 anos de carreira e deu conselhos para o profissional que deseja se tornar repórter.

Foto: Alice Vergueiro
Estar em campo para realizar um trabalho mais extensos exige também preparação, disposição para ficar um longo tempo imerso em um único tema, além de maturidade, confiança do veículo de comunicação que bancar a pauta e responsabilidade, elenca a jornalista.

"Só a cobertura do dia a dia não credencia ninguém a ser um repórter especial", afirma ela, que participou do painel "Bastidores de uma investigação sobre TVs na Amazônia", com mediação de Natália Viana, fundadora da Pública, neste sábado (25). Na mesa, a repórter destrinchou os bastidores do especial "TVs da Amazônia: uma realidade que o Brasil desconhece", publicado no site
da agência em fevereiro.


Inicialmente pensada como livro, a reportagem tornou-se multimídia e interativa com o uso de textos, imagens -- feitas pela própria Elvira, e vídeos. Na publicação, Elvira faz um retrato do cenário televisivo da Amazônia Legal, território que compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão.



Durante 13 anos, a jornalista se dedicou à cobertura do setor de telecomunicações, a experiência a fez conhecer a legislação e os meandros do tratamento jurídico distinto da Amazônia para o restante do Brasil. "Lá as retransmissoras de televisão podem gerar conteúdo local, enquanto em outros lugares as retransmissoras eram apenas uma torre com um retransmissor, não podiam interferir no sinal", explica.


Segundo Elvira, na Amazônia há uma legislação que permite às retransmissoras produzirem até três horas e meia por dia de programação própria e regional e vendam anúncios locais. No restante do país, cada emissora produz seu conteúdo e a retransmissora apenas a reproduz. Na prática, segundo Elvira, as retransmissoras na Amazônia são geradoras. O fato ocorre em 1.737 canais espalhados pelos municípios dos nove estados englobados na apuração.



Para compreender e reportar corretamente, a jornalista reforça a importância de estudar o tema antes de ir a campo. "Conhecia todos os decretos-lei, leis, portarias. Isso fazia parte do meu cotidiano, parte árida e nada charmosa, mas é fundamental", conta.

A reportagem foi produzida durante 11 meses, durante seis meses ela se dedicou a montar um banco de dados e depois foi a campo. Elvira pesquisou onde essas retransmissoras estavam localizadas e quem eram seus donos. Dos 1.737 canais da região, a reportagem mostrou que um quinto pertence a políticos.

Durante a apuração, a profissional conheceu as chamadas "mini-emissoras" e 
os atores envolvidos: políticos, empresários, moradores, técnicos e jornalistas que colocavam o conteúdo da emissora local no ar. O interesse dos donos dos canais aparece de forma nítida no conteúdo transmitido, mostrou o levantamento. Políticos utilizam o meio para atacar adversários e fortalecer a imagem junto ao público.


Além de expor denúncia, a reportagem conta histórias de jovens jornalistas da região. A palestrante conta que, muitas vezes, esses profissionais, formados no Maranhão e no Pará por meio de cursos de capacitação de curta duração, aprendem as funções da profissão na prática. "Era muito mais do que isso. Existe um veículo de comunicação que transmite o conteúdo da comunidade e profissionais que se orgulham de fazer parte dessa realidade que nós não conhecíamos", conta.




O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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