30/06/2018

Apoio à agência cresceu após fenômeno Trump, afirma editor-chefe da ProPublica

Stephen Engelberg defende que a colaboração é a chave para construir o jornalismo do futuro

Por Daniela Arcanjo
Stephen Engelberg, editor-chefe da ProPublica comandou o principal painel do último dia de congresso. Foto: Alice Vergueiro 
O editor-chefe de uma das mais respeitadas e inovadoras agências de jornalismo investigativo dos Estados Unidos encerrou o 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Stephen Engelberg foi o entrevistado da mesa “A colaboração é o futuro do jornalismo”, que ocorreu este sábado e foi mediada pelos jornalistas Guilherme Amado, do ‘O Globo’, e Rosental Calmon Alves, do Knight Center.

Fundada em 2007, a ProPublica é uma redação sem fins lucrativos de jornalismo dedicada à investigação, dados e jornalismo de fôlego. Foi inicialmente financiada pelo casal de filantropos Herbert e Marion Sandler, mas hoje mais da metade da receita da organização vem de outras fontes.

O jornalista conta que, em 2007, o casal percebeu algo acontecendo com o jornalismo por causa da popularização da internet: surgia um ambiente com menos dinheiro e mais competição. Eles resolveram, então, investir em uma outra forma de se fazer notícia, com mais investimento, liberdade e colaboração. Hoje, a cada US$ 1 colocado na agência, US$n0,85 vai para o jornalismo. Por ser um site, há menos gastos que empresas tradicionais, como impressão e distribuição.

Engelberg fala que foi perceptível o aumento de colaborações após a eleição de Trump, protagonizada por escândalos envolvendo as chamadas fake news e venda de dados em redes sociais. Hoje, o jornalista ressalta a importância da agência. Segundo ele, qualquer que seja o seu posicionamento na política, é essencial saber que o jornalismo é importante para a democracia. Engelberg afirma que isso está ficando mais claro para as pessoas com o passar do tempo.

Hoje veículos como o ‘The New York Times’ e ‘The Washington Post’ publicam em parceria com a ProPublica. Essas colaborações, segundo Engelberg, são um modelo “ganha-ganha”, bem diferente da competição que se encontra entre a maioria dos veículos de comunicação. “Eu não imaginava que outras redações iriam querer publicar histórias como as da ProPublica”, conta ele.

Mas foi o que aconteceu, com grande êxito: em 2010, ganhou junto com o ‘NY Times’ um Pulitzer pela reportagem The Deadly Choices at Memorial. Foi a primeira reportagem publicada originalmente em um veículo online a ganhar o prestigiado prêmio. A internet, segundo o editor, ajudou esse tipo de jornalismo por conectar pessoas que antes não estavam em contato.

Colaboração

Com bases de dados colaborativas, redação diversificada e investimentos consideráveis, a ProPublica representa, para o jornalista, um modelo que pode crescer no futuro. Um de seus projetos, em português, convida o leitor a dar a sua contribuição sobre os centros de detenção de crianças que foram separadas de seus pais após eles serem detidos ao entrar nos Estados Unidos. No primeiro parágrafo do texto lemos: “Precisamos de sua ajuda para obter informação sobre os locais de detenção e sobre as crianças que estão nelas”.

A diversidade de formações entre os profissionais da redação e o tempo de que eles dispõem para fazer a reportagem, para Engelberg, fazem toda a diferença na qualidade das apurações. "Antigamente você cobria uma história e, para isso, entrevistava cinco pessoas. Quando te perguntavam: ‘como você sabe disso?’ Você respondia: ‘eu conversei com cinco pessoas’. Hoje os leitores querem mais dados (...). Agora o trabalho é mais complicado e você precisa de mais pessoas". Bem-humorado, finaliza: “é impossível ser feliz sozinho”, em português.

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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