29/06/2018

Como evitar clichês na cobertura de políticas de drogas

Harumi Visconti e Júlio Delmanto defendem que tema vai muito além de segurança e saúde pública

Por Bianca Ribeiro


Júlio Delmanto e Harumi Visconti (PBPD) conduziram o painel. Foto: Alice Vergueiro.
Guerra às drogas, descriminalização da maconha, internações compulsórias, cracolândias. Esses são alguns dos assuntos que integram o universo das políticas de drogas - e suas consequências - e, vez ou outra, ganham espaço no noticiário brasileiro.

Para debater o impacto social da cobertura jornalística acerca dessas pautas, Harumi Visconti, coordenadora de comunicação da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), junto com Júlio Delmanto, jornalista e doutorando em História Social, se reuniram em palestra no 13° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Visconti afirma que drogas não são apenas uma questão de segurança e de saúde pública, mas também um tema de cunho social. “A gente não criminaliza as drogas. A gente criminaliza determinadas pessoas que usam drogas”, critica.

De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, publicado em 2017, o tráfico de drogas é o crime que mais leva pessoas à prisão no Brasil, correspondendo a 28% da população carcerária, formada principalmente por homens jovens, negros e pobres.

Para Harumi, a imprensa brasileira reforça estigmas sociais por meio de coberturas “rasas”, e é necessária uma ampliação do debate sobre políticas de drogas. “É preciso rever o modelo em si, e não apenas focar nas consequências que ele traz”, comenta.

A coordenadora de comunicação do PBPD também aponta caminhos que podem ser seguidos por jornalistas, apresentando uma lista com sugestões de pautas diferenciadas para a cobertura do tema.

Entre as possibilidades de pautas sugeridas estão:

     Tributação em mercados regulados de maconha;
     Tráfico de drogas e trabalho infantil;
     Mercado da maconha medicinal;
     Proliferação de drogas sintéticas e os perigos à saúde;
     Retirada forçada de bebês de mães usuárias de crack;
     O mercado não regulado do álcool;
     Abuso de medicamentos com prescrição;
     Uso religioso X Tráfico de drogas;
     Financiamento de comunidades terapêuticas

Delmanto, que também é ativista e integrante do coletivo antiproibicionista Desentorpecendo A Razão (Coletivo DAR), apresentou dados e exemplos de reportagens que, segundo ele, legitimam uma abordagem pejorativa de pessoas que consomem drogas, invisibilizam ou as descrevem como se fossem todas “usuárias problemáticas”.

No entanto, como meio de auxiliar jornalistas nesse tipo de cobertura, o PBPD, em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e a Catalize, publicou o Guia Sobre Drogas Para Jornalistas, que reúne verbetes e um glossário com mais de 250 termos relacionados ao assunto. O guia está disponível gratuitamente no link.

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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