30/06/2018

Jornalista ensina a usar dados públicos na cobertura do setor empresarial

Ferramentas e sites podem ser úteis na hora de investigar grandes corporações

Por Natália Novais
Fernando Torres explicou o funcionamento de alguns tipos de empresas. (Foto: Alice Vergueiro)
Empresas de capital aberto são obrigadas por lei a divulgarem dados e balanços financeiros para o acesso público. No entanto, nem sempre é fácil encontrar essas informações e entender o que elas significam. Foi para desmitificar esse problema que o jornalista do Valor Econômico Fernando Torres, ensinou caminhos e práticas na oficina "Como usar dados públicos para investigar empresas" no terceiro dia do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.



Torres comenta que a maioria das empresas no Brasil precisa tornar seus dados públicos para a sociedade e isso acontece através de um diário oficial. Os diários oficiais são jornais criados para divulgar atos da administração executiva, legislativa e judiciária no país.

Um dos problemas apontados pelo jornalista é que essas informações expostas nem sempre são transparentes. “Muitos dados estão maquiados, às vezes são publicados atrasados, sem contexto. Se uma empresa divulga um balanço patrimonial sem uma nota explicativa, para nós entendermos do que se trata é um problema”.

Exemplo comum desses “dados maquiados” são os relatórios de gastos com a remuneração da diretoria. A empresa não coloca o valor que cada cargo custa, mas sim a soma de todos eles, tornando impossível saber o valor que determinado diretor ou consultor ganha.

O site do governo federal Comissão de Valores Mobiliários (CVM)  pode ajudar a encontrar dados, pois é um repositório de informações das empresas brasileiras. Dentro dele é possível encontrar desde processos judiciais a quanto uma empresa lucrou em um determinado período.

Torres explicou que dentro do CVM uma das ferramentas mais poderosas para se descobrir furos, são as planilhas que indicam os fatores de riscos que determinada corporação tem: “É possível ver se as empresas fizeram empréstimos e quanto estão pagando de juros por isso”.

Outro caminho apontado pelo jornalista é o site da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp). “Ele também é uma fonte de pesquisas, muitas coisas inclusive saem antes no site da Jucesp, do que no diário oficial. Clubes de futebol, por exemplo, tem dificuldade em disponibilizar seus dados financeiros, é na Jucesp que você consegue ver esses dados.”

Reportagens sobre fusões ou aquisições de empresas são muito comuns no noticiário econômico. Torres diz que repórteres que conseguem ter acesso a essas informações geralmente chegam a elas por meio de fontes anônimas. No entanto, quando confrontados, se for verdade, os diretores dessas corporações precisam admitir e confirmar o fato.  “Quando um caso de compra vaza na imprensa, a empresa envolvida precisa admitir e confirmar a história, do contrário ela sofre um processo”, explica.

O jornalista observa ainda que mesmo que no Brasil as empresas tenham a tendência de ocultar os dados, isso não significa que elas estão escondendo algo errado.  “Nem todo problema fiscal ou de rombo financeiro tem em suas origens uma intenção criminosa. Às vezes pode ser falta de responsabilidade, nesse sentido a pena para irresponsabilidade é uma, já a pena para ladrão é outra.

Umas das críticas levantadas por Torres é a falta de ferramentas livres que auxiliam na pesquisa destes dados. “Precisamos de ferramentas, que fazem aglutinação de dados de graça”, afirma.

Outro ponto levantado é o caso de empresas que simplesmente não fornecem esses dados, por não se configurarem na lógica do capital aberto. Geralmente são corporações transnacionais, como as montadoras: “Elas têm relevância para sociedade, inclusive pegam dinheiro emprestado do BNDES, ganham incentivos fiscais e, mesmo assim não prestam esclarecimento sobre suas contas.”

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.



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