27/06/2019

Novas narrativas são necessárias para cobertura mais completa de segurança pública

Setoristas apontam caminhos para cobertura plural

Por Yasmin Oliveira 
Edição Carolina Vieira
Jornalista Anabela Paiva fala sobre cobertura de segurança pública no Rio de Janeiro (Foto: Augusto Godoy / Oboré)

A cobertura de segurança pública carrega um peso: o jornalismo ainda depende de versões oficiais, e iss
o tira o poder de voz dos outros envolvidos, acusados e vítimas. A opinião é de Anabela Paiva, jornalista responsável pelo Observatório da Intervenção, que monitorou ações da Intervenção Federal no Rio de Janeiro. “Precisamos procurar novas fontes, fugir da assessoria da polícia”.

Diante deste cenário, Anabela, carioca, falou sobre a importância do projeto. Pela falta de coberturas mais aprofundadas e a opinião pública favorável, ela sentiu que eram necessárias iniciativas para medir os impactos.




Para a jornalista, o resultado da intervenção foi “pífio” para a população quanto à promessa do governo federal de diminuir a violência. O Instituto de Segurança Pública endossa a impressão, registrando um aumento de 36% de mortos pela polícia durante a intervenção. O número de homicídios continuou alto, ultrapassando a marca de quatro mil ao longo de 2018, apesar da sensível redução de 7%, em relação ao ano anterior. 

A intervenção não trouxe indicadores melhores que os usuais, mas ainda tinha apoio massivo. Em setembro de 2018, pesquisa Datafolha mostrou que 73% dos fluminenses prorrogariam a intervenção. Para Anabela, daí surge um desafio: como tocar as pessoas sobre o debate da segurança pública? 

Dani Moura, coordenadora de comunicação da Maré de Notícias, acredita que o primeiro passo é mudar as narrativas apresentadas na mídia. “O mais importante é desmistificar o estereótipo ruim da favela.”

A Maré de Notícias faz uma cobertura direta sobre operações policiais na região. Ela destaca o trabalho em campo, a checagem dados oficiais e o plantão de operação para pessoas que se sentem violadas. Para Moura, isso traz o olhar do morador na reportagem, que considera essencial.

“A mídia tem dificuldade enorme de entrar na favela. Nós queremos mudança nos discursos que ela produz sobre operações dentro da comunidade.” Para isso, a Maré produz conteúdo para outros jornais locais, em que sentiu a diferença na abordagem ao longo do tempo. Já no plano nacional, ela sente dificuldade na mudança. 

Realidades Locais

Enquanto Anabela e Dani Moura são cariocas, Thiago Paiva é jornalista especializado em cobrir segurança pública em Fortaleza. Na região metropolitana da capital cearense, os conflitos entre facções pautam a cobertura policial. 

Só na primeira semana de 2019, o Ceará foi palco de mais de 150 ataques em reação a promessas do secretário da Administração Penitenciária para endurecer a procura por celulares nos presídios e acabar com a divisão de penitenciárias por organizações criminosas. 

Quatro facções comandam o crime organizado no estado: o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV), a cearense Guardiões do Estado (GDE) e a Família do Norte (FDN). Cada uma conta com centenas ou milhares de membros.

Entre análises dos anos de trabalho, Thiago Paiva expõe a realidade de uma região que considera pouco pautada no plano nacional. “A divisão dos presídios em facções piorou a situação. O preso é obrigado a escolher um lado. Se não tinha, passar a ter”.  


Thiago carrega uma planilha de dados com número de homicídios e crimes no estado para o trabalho. Mas conta que é difícil concluir até que ponto aumentos se relacionam diretamente com medidas de governo ou ações de facção. “Ainda falta uma análise que dê conta de como isso influencia nos indicadores de segurança do país.”

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário