28/06/2019

O conceito de Fake News é utilizado para descredibilizar o jornalismo

Especialistas apontam ameaças à liberdade de imprensa com a banalização do termo

Por Ariadne Mussato
Edição Cristiane Paião


Da esquerda para direita: Laura Tresca (Artigo 19), Rodrigo Rangel (Crusoé), Taís Gasparian (RBMDF Advogados), Natália Leal (Agência Lupa) e Ana Rita Cunha (Aos Fatos).
Foto: Natalia Souza
Existe uma linha tênue entre a possibilidade de controle de fake news e liberdade de imprensa que, para a advogada Taís Gasparian, da RBMDF Advogados, pode gerar um grande problema quanto a judicialização das notícias falsas. Isso porque, para ela, não existe uma definição exata sobre o termo e, quando se trata de imprensa, gera censura.

“Se vocês forem sair daqui com uma recomendação minha, seria: não usem o termo fake news, porque esse conceito tem sido usado por políticos para desacreditar a imprensa, para desacreditar o trabalho do jornalista”, disse a advogada.




Para uns, uma notícia incompleta ou com uma definição errada é fake news. E essa amplitude de definição do conceito, permite a descredibilização de reportagens sérias e colabora para o mau uso dessa palavra.

A jornalista Ana Rita Cunha, do Aos Fatos, defende que o conceito de desinformação é até mais complexo que o de fake news. Um exemplo claro são os sites de sátiras ou de paródias que, muitas vezes, são lidos como algo sério, mas que usam acontecimentos do dia a dia, como uma espécie de licença poética.

“Eu não tenho que censurar uma sátira. Isso mostra apenas que existe um problema de leitura, e ao usar o termo fake news, você reduz a questão de desinformação, que tem várias camadas e níveis de complexidade”, reitera Ana Rita.

Em ambientes polarizados o conceito de fake news é muito utilizado para descredibilizar as opiniões contrárias e, consequentemente, possibilitar que políticos censurem trabalhos de jornalistas sem checagem. “Os maiores pedidos de remoção de matéria do ar são feito por políticos e por partidos políticos”, afirma Taís Gasparian.

Rodrigo Rangel, diretor da revista Crusoé, compartilhou sua experiência em relação ao conceito errôneo de fake news por parte de uma ordem judicial do Supremo Tribunal Regional. No dia 12 de abril, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, determinou que uma reportagem da revista e publicada também no site Antagonista fosse retirada do ar por considerá-la fake news. 

A reportagem intitulada “O amigo do amigo do meu pai” dizia que o empreiteiro Marcelo Odebrecht, em um e-mail, se referia como o “amigo do amigo”, o ministro Dias Toffoli, presidente do Tribunal. Dias depois, Alexandre de Moraes voltou atrás e retirou o inquérito sem dar explicações.

Natália Leal, da Agência Lupa, afirmou que não utiliza o conceito de fake news por ser muito amplo e por considerá-lo contraditório. “Todos nós que fazemos jornalismo sabemos que uma notícia é baseada em um fato. Se uma coisa é fake, não pode ser considerada um fato”, afirma a jornalista.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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