28/06/2019

O racismo estrutural na imprensa brasileira e os caminhos para construir redações mais plurais

Em um cenário de crise econômica e de representatividade no jornalismo brasileiro as redações começam a apostar em diversidade

Por Weslley Galzo


Da esquerda para direita: Basília Rodrigues (CBN), Paula Cesarino (Folha de S. Paulo), Dominique Azevedo (Coletivo Cacos) e Paula Miraglia (Nexo).
Foto: Alice Vergueiro
Em um dos painéis com quadro de palestrantes mais diverso do Congresso da Abraji, e plateia igualmente plural - em sua maioria jovens, mulheres e negros - a conversa sobre racismo e misoginia na imprensa foi ao mesmo tempo amistosa e confrontadora. 

Repórter que cobre o poder em Brasília e setorista do Palácio do Planalto na sucursal da CBN, Basília Rodrigues logo no início expôs sua visão de modo contundente: “ser jornalista negra é conviver com o racismo diariamente, tanto no contato com a fonte, como com os colegas de redação”.




Na mesa composta por quatro mulheres, em vez de apenas se discutir as razões pelas quais as redações brasileiras precisam investir em diversidade - que inclusive era o título do painel - buscou-se também ir a fundo na direção de possíveis soluções práticas para o problema. 

Paula Cesarino, ex-ombudsman e chefe da recém-criada editoria de diversidade da Folha de S. Paulo, lembrou que outros setores já constataram a necessidade ter haver equipes de trabalho que promovam a diversidade. “A mídia no Brasil está chegando atrasada no debate”, diz. 

Cesarino citou a ombudsman da National Public Radio (NPR), que defende a disposição de reflexão sobre o tema como um “ornamento importante para a credibilidade da mídia”. Paula completou a ideia, perguntando: “por que as pessoas vão confiar nas fontes de notícias se não se veem representadas (por quem as produz)?”  

Propostas para alcançar uma redação mais plural

A editora da Folha de São Paulo citou o projeto 50:50 da BBC, que propôs medidas para que todos os programas da grade tivessem a mesma proporção de homens e mulheres apresentando telejornais. A jornalista contou que ao assumir sua nova missão na Folha, definiu algumas frentes para promoção pluralidade. 

São elas: 1. Refletir sobre o tema olhando para o produto como um todo; 2. Buscar fontes de diferentes extratos da sociedade; 3. Garantir diversidade de gênero, raça e orientação sexual dentro da própria redação; 4. Pensar em processos de contratação que atraiam público que hoje está menos presente na redação; 5. Evitar a estigmatização de personagens na hora de relatar os eventos; 6. Buscar histórias para além dos eixos das capitais e dos grandes centros. 

No decorrer da conversa, a ex-ombudsman disse esperar que as medidas tragam resultados a médio e longo prazo. Incomodada com a perspectiva de que mudanças só serão percebidas mais adiante, a diretora de comunicação do coletivo Cacos e mediadora da mesa, Donminique Azevedo, afirmou de forma incisiva: “ eu, como uma jornalista negra, tenho pressa em ver redações mais plurais”.

Diretora geral do Nexo, Paula Miraglia apresentou aos espectadores um programa de formação do veículo que será lançado em agosto deste ano, focado em diversidade na comunicação. Dez estudantes de jornalismo negros receberão bolsas para trabalhar no veículo e ter aulas de inglês e técnicas jornalísticas para complementar sua formação. O programa terá dez meses de duração. 

Paula conta que a iniciativa foi construída no decorrer de um ano, com o auxílio de vários profissionais negros de diferentes áreas. “É um esforço de aprimorar nossos processos de contratação para garantir mais diversidade na redação, mas também trazer para perto um assunto que é importante no jornalismo”, diz a jornalista.

A diretora do Nexo também revelou que, apesar de ter tido a oportunidade de construir um veículo de comunicação do zero, ela considera não ter sido completamente bem sucedida a intenção de promover a diversidade no jornal. “Não conseguimos, mas a gente vem trabalhando nisso”, afirma. 

O racismo na imprensa

Para Basilia Rodrigues, a mídia é mais racista do que misógina.  “Em vários momentos eu vi situações em que a mulher passava (sem dificuldades), mas, a mulher negra, não”. Ela cita como exemplo de episódio constrangedor, algo que ocorre muito no dia a dia de uma redação: “você é uma ótima repórter, mas não é convidada para aquele jantar com determinada fonte, pelo fato de ser negra”. 

“Por que não temos redações semelhantes à (composição da) sociedade? No sentido de ter mais negros e mais mulheres?”, provocou a jornalista. “Mesmo que o negro chegue lá em cima na formação profissional, ele não é escolhido”, complementou a repórter da CBN.

Azevedo comentou: “estou cansada de ser a única”. Cesarino lembrou de problemas que ocorrem no processo de contratação: “os negros sabem das vagas pelo site, os brancos pelo ‘círculo’, pelos amigos”. Analisando a situação das redações brasileiras, ela aposta mais na discussão do tema durante a seleção de estagiários do programa de treinamento, hoje principal porta de entrada na Folha. Poucos jornalistas têm sido contratados, segundo ela. “Os jornais só demitiram nos últimos 10 anos”. 

Ao fim da palestra, Basília comemorou, em entrevista exclusiva, ter tido a oportunidade de estar presente em dois painéis do Congresso da Abraji 2019. “Isso é um marco na minha carreira” disse ela, referindo-se à participação em um painel sobre diversidade (“ tema que eu gosto e também faz parte das minhas bandeiras no combate ao racismo”) e outro sobre a cobertura política em Brasília (“independentemente de ser branco ou negro eu mostrei o meu trabalho como jornalista”).

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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