28/06/2019

Vaza Jato não tem prazo para terminar, diz editor do The Intercept Brasil

Conversas envolvendo Moro e a Força-Tarefa estão em centenas de chats em processo de análise

Por Géssica Brandino e Leandro Melito


Leandro Demori afirmou não saber ao certo quantos gigabytes tem os documentos que o The Intercept Brasil recebeu.
Foto: Gabriela Carvalho
O vazamento de conversas envolvendo o ministro da Justiça, Sergio Moro, quando era juiz da Lava Jato em Curitiba e procuradores da operação não tem prazo para acabar, disse o editor do The Intercept Brasil, Leandro Demori, nesta sexta-feira (28) no 14º Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji. Divulgar o material, ainda que parcialmente, foi uma decisão editorial tomada após avaliar o interesse público envolvido na troca de mensagens, contou.

“Você não senta por um ano em cima do material quando alguém está comendo quentinha na cadeia”, respondeu Demori ao ser questionado pelo editor-chefe do Poder 360, Fernando Rodrigues, sobre porque não fazer a divulgação aos moldes da operação Panamá Papers, que revelou documentos ao longo de duas semanas seguidas.




Segundo o editor, áudios e fotos presentes em centenas de grupos e conversas privadas ainda estão em processo de análise e apenas o conteúdo que tiver interesse jornalístico será divulgado. Sobre diálogos entre jornalistas e fontes, ele afirmou que a questão do sigilo será observada numa análise caso a caso.

Em meio a todos esses grupos de troca de mensagens, os jornalistas identificaram três onde fluxo de mensagens era maior para iniciar a apuração. Em apenas um desses grupos, o “Filhos de Januário”, os diálogos somavam 1700 páginas de texto. “A gente abriu e identificou esses chats principais e por estratégia decidiu privilegiar aqueles”. diz Demori.

Ao falar sobre o caso que tomou o noticiário político do país a partir do dia 9 deste mês, com a divulgação dos primeiros diálogos entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol, chefe da Força-Tarefa, Demori criticou a forma como a imprensa lidou os escândalos revelados ao longo dos 5 anos da operação. 

“A gente tem que ser cético, desconfiar de tudo, inclusive de procuradores e juízes. Tratou-se por muito tempo como se aquilo fosse o totem da verdade, que tudo que saia de lá era verdade e isso perdura até hoje”, disse.

Segundo ele, as mensagens mostram como procuradores acompanhavam todo o conteúdo divulgado sobre a operação e cuidavam de sua imagem, tratando qualquer crítica como tentativa de acabar com o enfrentamento à corrupção no país. “Era uma cruzada santa pra eles. Substitua a palavra satanás por corrupção e era isso que representava pra eles. Don’t touch me: eu sou o anti-corrupção”.

Demori conta que a equipe do Intercept procurou parceria com outros veículos para que a divulgação fosse feita de forma conjunta desde o início, mas diante do não retorno, decidiram assumir o furo, na certeza de que a partir do momento em que as redações vissem o material, haveria interesse. “Era importante pra gente dar o pontapé inicial”, pontua Demori.

A expectativa se concretizou e no domingo (23) a Folha de S. Paulo publicou a primeira reportagem feita em parceria com o The Intercept. O jornal também destacou que seus repórteres verificaram a autenticidade do material, buscando diálogos que tiveram com procuradores ao longo da operação. 

Mesmo com a parceria, o jornal afirmou em editorial publicado nesta quarta (26) que “ainda não se atestou a autenticidade das mensagens, que de resto talvez tenham sido obtidas de forma criminosa. Da ilegalidade dessa prova decorreria sua inutilidade do ponto de vista jurídico”. 

Demori ressalta que a escolha editorial do Intercept está baseada no interesse público e jornalístico das mensagens e não em sua validade jurídica.“Nós não somos procuradores, não somos acusadores, não somos juízes. A gente não vai emitir sentença sobre nenhum desses personagens. Então o maior indicativo de que a Folha acredita que há uma autenticidade jornalística nisso é que eles estão publicando o material”, afirma.

O editor também anunciou uma parceria firmada com a revista Veja e disse que, assim como o site tem feito com o jornalista Reinaldo Azevedo, é possível fazer parcerias pontuais para divulgação dos conteúdos. O intuito, explica, é atingir as mais variadas audiências para assim desconstruir o discurso feito em torno da operação.

As conversas foram trocadas pelo aplicativo Telegram entre 2014 e 2018. Nem Deltan e nem Moro negaram os conteúdos dos diálogos, mas minimizaram a repercussão do caso, dizendo que a única ilegalidade nas conversas era o modo como foram obtidas. Chamado para prestar esclarecimentos no Senado, Moro acusou o The Intercept de estar “aliado a hacker criminosos”. 

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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