12/09/2020

Jornalismo de periferia: a pauta como território

Gênero atua como uma poderosa ferramenta de desconstrução do senso comum

Por: Dario Vasconcelos e Maria Carolina Sousa
Edição: Samara Najjar


Miguel Otávio era morador da periferia de Recife quando lhe tomaram a oportunidade de encontrar o seu lugar no mundo. Vítima da negligência e abandono da ex-patroa de sua mãe, perdeu a vida aos cinco anos ao cair do 9º andar de um condomínio de luxo no centro da capital pernambucana em junho deste ano. 
 
As primeiras reportagens sobre o caso anunciavam seu nome e de sua mãe, mas escondiam o da empregadora, o que causou uma discussão intensa nas redes sociais sobre consciência e letramento racial.

Questionando-se sobre qual é o valor-notícia das pautas da periferia, os jornalistas Lenne Ferreira, do coletivo pernambucano Afoitas, e Ronaldo Matos, cofundador do Desenrola e Não Me Enrola, discutiram o tema “Newsmaking do jornalismo periférico: juventude e articulação no território” neste sábado (12) no 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A mediação da mesa ficou a cargo de Aline Rodrigues, cofundadora do Periferia em Movimento.


Quem cobre diariamente as notícias do território periférico sabe que fazer jornalismo dentro das favelas passa pelo processo de criar novas narrativas para antigas dores. Para Ronaldo, que traz na sua trajetória a vivência no bairro Jardim Ângela, em São Paulo, “fazer jornalismo na periferia não é só produzir ou distribuir informação – é pensar a pauta como território”.

Usar a periferia como plataforma urbana para o processo de elaboração de pautas e fazer das fontes locais grandes especialistas é uma das metas desse recorte jornalístico. “A gente busca aproximação com as fontes do nosso território, enxergando mulheres de diversos campos como especialistas importantes”, pontuou Lenne. Porém, pela proximidade e envolvimento com as diversas pautas “a gente às vezes também cai nessa de querer estereotipar a favela”, acrescentou a ativista feminista.

Outros olhares

A teoria newsmaking se aplica ao jornalismo tradicional produzido nas grandes redações, diferente do jornalismo periférico, impulsionado por veículos independentes e comunitários. Por isso, a linha tênue entre a tão exigida imparcialidade e o ativismo se torna uma discussão frequente. Para Ronaldo, quando é necessário é feita uma escolha clara de pauta e visibilidade, especialmente em datas importantes, como o Novembro Negro. “Diversidade não é corpo, mas subjetividade”, disse.

Foram apresentados também dois coletivos que têm como objetivo quebrar as barreiras padronizadas da mídia hegemônica: Nós, mulheres na periferia e Jovem Tapajônico. O primeiro opera na cidade de São Paulo e representa as mulheres negras e periféricas em suas vivências. Já o segundo, realiza um trabalho junto dos jovens na região de Santarém, município no oeste do Pará, com objetivo de trazer pautas indígenas de maneira acessível e dinâmica para as diversas comunidades locais.

Jovens reivindicam espaço

A crescente presença da juventude no fazer jornalístico contribui para um processo de inovação na seleção de pautas e produção de matérias. Ronaldo cita algumas das editorias especiais trabalhadas durante um curso do Desenrola, pensadas para que os estudantes entendam e reflitam sobre a importância de suas vozes e trajetórias na profissão. “Estamos contribuindo para gerar uma nova formação”.

Lenne, que também se informa com sua filha de 14 anos, diz que a comunicação entre as diferentes gerações deve ser aberta, com todas as partes dispostas a ouvir e serem ouvidas. “Dialogar com a juventude é a melhor forma que a gente tem de construir um diálogo inclusivo”, diz.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher 
Criação de arte: Mikael Schumacher

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 


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