28/06/2019

A força do jornalismo hiperlocal e a representatividade que aproxima os leitores

Elvira Lobato e Ana Terra Athayde descobriram um 'deserto de notícias' em diversas regiões do Brasil

Por Thalita Monte Santo

Da esquerda para direita: Elvira Lobato (Freelancer), Ana Terra Athayde (Freelancer) e Ângela Pimenta (Projor).
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
“Eu conversei com os atingidos [da tragédia de Mariana] e muitos não sentiam vontade de ver como suas histórias saíam na grande mídia”, contou a jornalista Elvira Lobato que, ao lado da videorrepórter Ana Terra Athayde,  percorreu seis cidades brasileiras onde a grande mídia normalmente não chega. São os chamados 'desertos de notícias'. 

Mariana (MG), Cidade Ocidental (GO), Novo Hamburgo (RS) e Altamira (PA), Arapiraca e Palmeira dos Índios (AL), com seus veículos mais do que locais, foram os cenários da apuração cujos resultados foram publicados em um especial multimídia produzido como parte do Atlas da Notícia, um projeto de dados do ProJor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo).




“Em cada cidade a gente pode observar algo de particular no jornalismo local. Em Mariana, por exemplo, o foco era o impacto do desastre ambiental de 2015, não só na cidade, mas no jornalismo que é feito lá”, conta Ana Terra. 

Como exemplo de boas práticas, as jornalistas destacaram o jornal A Sirene, de Mariana (MG), voltado para defender a causa dos atingidos, que surgiu com uma verba arrecadada pela Arquidiocese de Mariana e aprovada pelo Ministério Público. Ele foge do modelo tradicional de jornal impresso, e esse aspecto, segundo elas, aproxima os leitores. 

“A primeira coisa que eu vi quando cheguei lá é que a cidade toda tinha uma mágoa da grande mídia e da imprensa internacional. Achavam que a imprensa tinha sido muito injusta com Mariana, que não tinham explicado, por exemplo, que a lama passou a 30 km da cidade e o patrimônio histórico tinha sido preservado”, explica Elvira. 

Outro ponto marcante da experiência foi constatar que uma cobertura hiperlocal também pode trazer problemas em relação a um bom jornalismo pois, para se manterem, muitos veículos se aproximam de políticos. Isso, como consequência, traz a falta de investigação sobre o poder público. “Em Arapiraca, vimos de perto a força da rádio, que é o principal veículo de comunicação, e como os grupos políticos estão muito ligados a ele”, explica Ana Terra. 

Já em Cidade Ocidental (GO), as jornalistas descobriram que não existe um veículo jornalístico tradicional, mas sim grupos de Whatsapp e uma página no Facebook, que se diz oposição a gestão local, levando informações para os moradores da região. “Você vê que 70% da população segue ela [página]. Mas o que isso significa? Você está se informando por uma página que não cumpre a ética jornalística e isso tem um impacto muito grande em como as pessoas estão se informando”, conta Ana Terra. 

Para elas, o trabalho do repórter que vê de fora a situação e a cobertura local em momentos como esses, é tentar entender a realidade de quem faz aquele veículo. Muitas vezes para se manterem em pé eles passam a tratar as pautas com parcialidade. 

“Todos os jornais funcionam em casas e dependem de verbas da Prefeitura. E eles têm a consciência da parcialidade do noticiário, mas pesam na balança sobre o que é mais importante: continuar sobrevivendo com uma cobertura precária ou desaparecer?”, conta Elvira. 

Apesar da ligação política, em alguns casos, a população dá credibilidade para as mídias justamente por retratarem mais de perto suas realidades. Enquanto o desafio de outros jornalistas é ganhar credibilidade desse público. “Os jornais locais na região do Vale dos Sinos acreditam muito na confiança de seus leitores, eles se vêem naquilo, coisa que nós jornalistas temos dificuldades principalmente na grande mídia”, afirma a jornalista.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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