28/06/2019

Como as ‘fake news’ foram usadas pelo governo soviético como arma de guerra

Série de reportagens narra  campanha de 'desinformação' patrocinada pelo serviço secreto soviético

Por Luana Dias e Luísa Cortés
Edição João Paulo Charleaux
José Roberto de Toledo (Abraji)  e Adam Ellick (The New York Times). Foto: Luana Dias
“Antes éramos nós [americanos] contra eles [soviéticos]. Agora, somos nós contra nós”, disse o jornalista do The New York Times Adam Ellick em palestra no 14º Congresso da Abraji, em São Paulo. Ellick é responsável por uma série de vidoedocumentários chamada Operation Infektion [Operação Infecção, em tradução livre].

A série conta a história de uma campanha de desinformação conduzida pelo serviço secreto soviético, a KGB, no período da Guerra Fria - nome dado ao período após a Segunda Guerra Mundial (1945) em que soviéticos e americanos protagonizaram uma corrida nuclear que se prolongou até 1991. 

Nessa campanha, a KGB propagou a informação de que os Estados Unidos criaram o vírus da Aids em laboratório com a intenção de exterminar a população negra e LGBT. A intenção do boato era explorar a desunião da sociedade americana, enfraquecendo o governo adversário. 

O boato disseminado pela KGB no passado seria o que hoje se chama “fake news”. À época, a informação começou circulando em pequenos jornais locais e levou muito tempo até tomar a dimensão esperada. Hoje, as “fake news” atingem escala mundial em questão de segundos pela internet.

Um dos remédios contemporâneos para conter esses boatos é a checagem de informações, conhecida pelo termo em inglês “fact checking”. Embora essa prática seja vista com grande entusiasmo pelos jornalistas, Ellick  considera que “sentar e falar o dia todo sobre fact checking é subestimar o problema.” Para ele, essa ação de enfrentamento exige um alto nível de sofisticação tecnológica com operações de caráter cibernético. 

Essa sofisticação à qual Ellick se refere deve-se ao fato de que as grandes campanhas de desinformação muitas vezes fazem parte de estratégias complexas desenvolvidas por Estados poderosos, não resultam somente de ações isoladas e pequenas. Assim, o papel do jornalismo e do “fact checking” se tornam insuficiente como remédio para uma ameaça tão grande. “Inflamos nosso poder e responsabilidade. O jornalismo definitivamente é parte da solução [quanto à desinformação], mas no nível maior isso é um estado de guerra de desinformação. É militar”, afirma Ellick. 

O próprio palestrante contou que já foi vítima de campanhas de desinformação fomentadas em plataformas virtuais. De acordo com ele, é justamente essa experiência pessoal que alimenta sua obsessão pelo tema. Quando Ellick vivia no Paquistão, em 2010, ele teve sua imagem vinculada à de um terrorista que, naquele período, havia matado 200 crianças da região. Devido ao acontecimento, o jornalista americano passou a sofrer assédio online e teve sua conta do Twitter hackeada.

Os sete mandamentos que explicam a estratégia da KGB

A série sobre a qual o jornalista falou durante o congresso é composta por três episódios de 15 minutos de duração cada um. O formato, de média duração e linguagem acessível, ajuda a aproximar um assunto complexo do público em geral. “Eu e meu time estamos fazendo disso divertido e palatável, com seriedade para formar boa reportagem”, disse. O custo estimado da série, que teve algumas viagens dentro dos EUA e cenas de animação, é de entre US$ 50 mil e US$ 65 mil.

A estratégia de desinformação da KGB, mostrada na série, foi tão eficiente que chegou a 80 países, entre eles os Estados Unidos. Até hoje, cerca de 30% da população americana acredita que a notícia seja verdadeira. Como diz Ellick, “uma boa campanha de desinformação nunca é silenciada”.

O método seguido pelo serviço secreto soviético seguiu, de acordo com Ellick, os seguintes passos: 

1. Na sociedade que você tem como alvo, encontrar as divisões sociais que podem ser exploradas: econômicas, sociais, étnicas, linguísticas...;
2. Crie uma grande mentira, algo tão indignante que ninguém possa acreditar que seja mentira;
3. Exponha essa mentira com um elemento de verdade;
4. Faça parecer que a notícia veio de outra pessoa;
5. Encontre o “idiota útil”, alguém que acredite na história e a traga para o seu público-alvo
6. Quando quiserem desvendar a sua história, negue, por mais óbvia que seja a verdade.
7. Elabora planos a longo prazo

Chamadas de sete mandamentos, essas regras eram base de boa parte da atuação da KGB, que entre outras coisas, atuava ideologicamente contra o governo americano a partir de desinformação. Essas práticas eram chamadas de “medidas ativas”. 

Mas, na própria série de documentários e na palestra, Ellick reconhece que os Estados Unidos também atuaram em campanhas de desinformação em diversos países. Por isso,  têm uma parcela de responsabilidade no anti-americanismo presente em boa parte do mundo.

A diferença, segundo o jornalista é a seguinte: “O escopo, a escala e o investimento nas ações de desinformação soviéticas excedem rapidamente qualquer coisa que os Estados Unidos poderiam sonhar. O profissionalismo e o fato de que foi guiado por inteligência militar é muito mais efetivo e sofisticado. Isso não justifica o que os EUA fazem, mas esses [os soviéticos] são os padrinhos da desinformação. Eles são os mestres.”

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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