30/06/2019

Entrevista: Jornalismo comunitário aproxima grande imprensa e academia da realidade periférica


Gabi Coelho transita entre favela e asfalto, reportando temas caros à periferia

Por Ana Luisa Zaniboni, Germano Assad e Leandro Melito
Edição: Germano Assad

Jornalista Gabi Coelho, em painel no 14º Congresso da Abraji. (Foto: Alice Vergueiro / Abraji)

Cobrir temas relevantes e presentes no cotidiano das favelas e periferias Brasil afora sempre foi um desafio, em especial para a grande imprensa e correspondentes internacionais baseados no país. Para não incorrer em velhos clichês e preconceitos, nada como uma visão de dentro, sensível à imensidão do país e suas nuances regionais.

A imprensa alternativa tem histórico de representatividade no Brasil, mas com o assassinato de Tim Lopes, em 2002, passou a pautar com mais frequência as mídias de massa. Por um lado pela consolidação de novos coletivos, jornalistas e mídias. E por outro, pela busca dos canais tradicionais por uma cobertura comunitária segura, plural e que vá além do narcotráfico e da utilidade pública pontual.

Gabi Coelho é uma destas jornalistas, que tem colocado sua “visão de mulher negra periférica, jovem” a serviço do diálogo entre a favela e o asfalto.



Atualmente com colaborações para a Ponte, revista Carta Capital e o trabalho que a consolidou na profissão, no jornal Voz das Comunidades, ela pratica e ressalta o jornalismo responsável. E quando precisa explicar os limites entre a profissão e o ativismo, lembra a máxima de uma colega: “O jornalismo é minha militância”.

Mas nem sempre é possível dialogar com acusadores anônimos e haters nas redes. Fonte de veículos e profissionais do país todo pelas apurações e postagens, especialmente no Twitter, Gabi é taxativa: “Se sou carimbada como a militante de esquerda, e isso vai acontecer, também não considero um problema, eu quero ser a pessoa que sabe o que está falando, que estudou, que apurou e se aprofundou, porque em tempos de desinformação a credibilidade é a nossa maior riqueza”.

Confira entrevista exclusiva concedida por ela ao Projeto Repórter do Futuro, durante o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Como descobriu a vocação para o jornalismo?

Em 2010, quando aconteceu a ocupação [Unidades de Polícia Pacificadoras nas comunidades do Rio de Janeiro] eu era muito nova, e eu lembro pouco do que assisti na TV, de coberturas da Record e da Globo, eu lembro de algumas imagens que só estão fixadas na minha cabeça porque são repetidas ao longo dos anos.

Aquelas cenas de traficantes fugindo ali da Serra da Misericórdia no Morro do Alemão, eu acompanhava aquilo em casa. E mesmo não tendo pessoas intelectualmente formadas na academia, a gente sempre gostou de sentar para assistir jornal, minha vó, minha mãe, então eu peguei um pouco dessa paixão pelo jornalismo dentro de casa.

Em 2014 o Renê [Renê Silva, fundador do jornal Voz das Comunidades] lançou o livro A Voz do Alemão, onde relata a própria história e a do jornal. Ele criou o Voz com 11 anos, para denunciar problemas sociais da rua da casa dele, de dentro da escola, com professores ajudando.

Com a ocupação o jornal fica conhecido por ceder informações para o Jornal Nacional, que inclusive ganhouprêmios na época pela cobertura que fizeram, então o Voz das Comunidades estava falando lá de dentro para o mundo o que estava acontecendo.

E eu fui no lançamento, porque lembrei da ocupação, da UPP no Alemão e conhecia o Renê,já conversava com ele pelo Twitter. Até então eu nunca tinha pensado em jornalismo, queria ser comissária de bordo, queria viver viajando, romantizando a profissão né, e era muito nova também, em 2014 estava no ensino fundamental ainda, tinha 15 anos.

O lançamento do livro foi em Belo Horizonte, numa Universidade, e eu queria conhecer a história do Renê de perto, queria me apresentar para ele, eu sempre fui muito comunicativa e curiosa. Queria entender o que tinha naquele livro, conhecer o Complexo do Alemão, porque eu venho de periferia em Belo Horizonte, mas não tenho essa vivência de favela, de morro, de beco, de violência o tempo inteiro, fuzil passando na minha cara o tempo inteiro. As violências que tenho são outras, tem tiroteio sim, mas não se compara ao Rio de Janeiro. E aí conhecendo o Renê, eu li o livro, e fiquei encantada pela comunicação comunitária.

Como entrou de vez na profissão?

Eu fiquei apaixonada pela comunicação comunitária depois de ler esse livro e de conhecer melhor a história do Renê, que hoje é um excelente empreendedor, e editor do nosso jornal.

Em 2015 eu já estava no ensino médio e queria muito um dia trabalhar com jornalismo. Quando ele me ligou uma vez para se reunir em Belo Horizonte, disse que já tinha lido algumas redações minhas, nunca tinha escrito um texto jornalístico, mas já tinha uma redação boa. Então me falou: “Porque você não participa de uma equipe nossa representando Minas Gerais?”

Estava muito aberto ainda o projeto, e inicialmente eu neguei, porque não tinha experiência nenhuma. Aí ele tentou de novo numa outra oportunidade e eu acabei topando. Entrei escrevendo artigos de opinião, uma visão de mulher negra periférica, jovem, e hoje eu coordeno essa equipe de colunistas.

Passei a ficar mais encantada pelo jornalismo e a ir mais para o Rio de Janeiro, a viver nessa ponte Rio de Janeiro – Belo Horizonte. Quando comecei a me inserir na cidade e entender como funcionava a comunicação comunitária eu vi que era possível começar mesmo sem estar na faculdade, porque eu achava que era muito distante essa coisa ainda, de 'ah, só vou ser jornalista um dia se realmente for formada', e penso que a formação a gente faz no dia a dia principalmente, não só na faculdade, que acho muito importante.

A sala de aula me ensina muito, essa troca que tenho com os professores, mas a rua me ensinou bastante. E aí comecei a fazer matéria na rua, estudar, pesquisar artigos na internet e fui saindo mais dessa coisa do opinativo e indo para reportagem que é o que eu gosto, e fui me encontrando ao longo desses anos dentro do Voz. Hoje estou coordenando essa equipe de colaboradores, que são 22 colunistas de favelas e periferias não só do Rio, mas também de outros lugares do país como Bahia, São Paulo e Belo Horizonte.

São coletivos, organizações?

Não, são indivíduos, pessoas mesmo. Mas que podem participar de outros coletivos também, e geralmente é isso que acontece. E aí fui entendendo um pouco da minha atuação nas redes sociais, o que que as pessoas estavam esperando da Gabi Coelho ali, então até o fato de assinar Gabi Coelho no jornalismo foi um processo na minha vida.

Porque, um processo?

Porque eu não gostava de assinar Gabrielle Coelho, achava formal demais, achava muito sério o tempo inteiro, mas também não queria assinar algo que me fizesse perder credibilidade, mas eu tinha que sustentar esse nome.

E hoje estar aqui palestrando na Abraji, chegar e ter um crachá escrito Gabi Coelho me esperando, assinar uma matéria, independente do veículo, porque eu tenho uma coluna de direitos humanos na Carta Capital, escrevo pra Ponte Jornalismo e para o Voz das Comunidades, e em todos assino Gabi Coelho.

Sou muito nova no jornalismo, mas com o foco, paixão pela profissão e respeito pelas pessoas com quem estou dialogando, ou para as quais estou prestando um serviço, porque eu acho que o jornalista é um pouco servidor público, o nosso trabalho tem uma função social importante, então gosto de pensar sempre em quem está lendo ou assistindo o que estou fazendo.

Você é assertiva no uso do termo comunicação comunitária. Mas transita no jornalismo local, nos direitos humanos, segurança pública... em qual área da profissão se sente mais à vontade?

Eu sou apaixonada por jornalismo investigativo. Eu fui me encontrando dentro desse lado de direitos humanos, segurança pública, mas entendendo também que se estou dentro de um espaço que tem certas urgências, como na comunicação comunitária, que exige entendimento de outros assuntos, também.

Eu não posso me limitar, achar que tudo gira em torno de segurança pública e direitos humanos, vai muito além. Então trabalho também com a questão do racismo ambiental, lancei agora um documentário em parceria com a PUC-RJ sobre meio ambiente e sustentabilidade na favela, sempre saindo dessas caixinhas em que colocam a gente, eu não gosto de ser limitada, a pessoa que vai ser eternamente a comunicadora comunitária, porque não é isso que eu quero.

Eu tenho outros objetivos, quero também trabalhar fora das periferias, mas sempre englobando o lugar de onde saí, o lugar de onde eu surgi dentro do jornalismo. Então se escrevo um texto para a Carta, se alguém da periferia for ler, se eu for publicar nas minhas redes sociais vai ser um texto sempre muito acessível, rico em dados, pensando em trazer essas pessoas para perto do que eu faço.

Você se coloca, politicamente? Jornalistas nunca foram tão rotulados como hoje, então, pelos veículos que representa, pelos temas que reporta, não acaba sendo taxada de militante, ativista?

Então, eu sempre falo uma frase que a Maria Carolina Trevisan soltou uma vez numa palestra, sou apaixonada pela Maria: 'A minha militância é o jornalismo'. É o que que eu tenho feito para as pessoas não me colocarem nessa caixinha de esquerdista, de militante, eu não sou essa pessoa.

Não me interessa ligar meu nome a um partido político, apesar de achar importante estarmos em diálogo com estes partidos, cobrando estes partidos como eles devem ser cobrados, mas eu não sou essa pessoa que levanta bandeira, milita. Mas acaba sendo inevitável, porque a gente acaba indo para uma direção que a galera conservadora não está afim de ir...

Como lida com a 'trollagem' e o ódio nas redes?

Falei disso ontem, minha conta no Twitter foi verificada. Nesse cenário atual que estamos vivendo a credibilidade é a nossa maior riqueza. Então porque que a minha conta foi verificada? Tem um porque também, o retorno que tive do deles foi essa questão do jornalismo, do trabalho que tenho prestado ali para as pessoas.

Falei essa semana sobre o caso Rafael Braga, já que não tinha visto nenhuma matéria sobre os seis anos de prisão dele. Então fiz uma sequência no Twitter, mas cheguei com dados, não cheguei assim 'ah é racismo'. É racismo? Porque é racismo? Quantas pessoas temos encarceradas e a proporção de negros entre estes presos? Mortes violentas e nas periferias? Então estou sempre trazendo essas questões, mas trazendo embasamento também, para não perder a minha credibilidade.

Se sou carimbada como a militante de esquerda, e isso vai acontecer, mas para mim também não é um problema, eu quero ser essa pessoa que sabe o que está falando, que estudou, que apurou e se aprofundou porque em tempos de desinformação está bem complicado.

Então dou muita importância para isso, seja em matéria ou num post no meu Twitter, que vira uma sequência e as pessoas comentam. Ontem me deram um retorno muito positivo aqui no stand do Twitter, gente que me segue e eu não sabia me falando 'eu me informo no seu twitter', é um feedback bacana para o trabalho que tenho feito.

As pautas que você trabalha na Carta Capital são as mesmas que você trabalha na voz das comunidades?

Não. Até porque o público é diferente. Público de favela não lê a Carta. A ideia de entrar para a Carta foi em parceria com o projeto Perifa Connection. São jovens, inclusive o Raul Santiago também está escrevendo de periferia, que estão pautando a Carta Capital sobre esses territórios, mas de uma forma, num âmbito mais nacional.

Cada um tem seu eixo, o meu é direitos humanos nacional, falo de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de outros lugares. Meu primeiro artigo na carta foi sobre os 80 tiros no Rio de Janeiro. E aí eu venho trazendo essa questão do racismo, mas sempre entendendo que eu tô falando pra um âmbito nacional. O Voz ainda está muito concentrado no Rio de Janeiro. E na Ponte eu sou repórter, escrevo matérias.

Na semana passada saiu uma matéria sobre moradores de ocupação que foram detidos em Belo Horizonte. Eu estava denunciando um caso de cinco moradores de ocupações que foram agredidos por policiais e aí eu fui ouvi-los, fui até a delegacia, então eu faço uma reportagem denunciando violação policial, mas eu escuto a polícia. Eu vou ouvir as pessoas, apuro as informações e coloco dados, não é textão militante.

Na Carta Capital você é quem define as pautas?

Sempre sou eu que defino, fecho a matéria e mando. Na Ponte eu mando para o editor e ele vê se aprova, mas como eu entendo bem a linha editorial a gente está sempre em sintonia. No Voz eu que defino. E nas redes sociais aproveito de tudo um pouco, inclusive o conteúdo de outros colegas, não só da mídia alternativa, mas também da mídia tradicional.

Onde que está a comunicação comunitária nisso, já que a Carta Capital e a Ponte não se definem desta forma. Como você faz essa relação?

Quando eu falo de comunicação comunitária eu estou me referindo ao trabalho que faço no Voz. Na Carta e na Ponte é muito a linha dos direitos humanos, da segurança pública que inclusive é como eles se intitulam, a Ponte mesmo coloca 'Portal de direitos humanos, segurança pública e justiça social'.

Mas entendendo a comunicação comunitária: o Voz é um jornal criado em favela que dialoga com a favela e quando vai dialogar com o asfalto é mostrando o que está acontecendo dentro da favela. Eu acredito sim que tem outro tipo de jornalismo comunitário, importante porque é de utilidade pública, mas que acaba não sendo o suficiente para as urgências. Eles vão ali num bairro periférico e resolvem o problema de uma rua, por exemplo. Eu acho que é pouco para as urgências.

E como está o curso graduação?

Tentando conciliar a rotina com essa ponte BH-RJ-SP. Mas tem dado certo, tenho um apoio muito grande dos meus professores, eles entendem muito a necessidade de estar ocupando estes espaços e que também do lugar de onde eu vim não é tão comum a gente ver pessoas tão jovens palestrando numa Abraji por exemplo. Então eles entendem, são bem flexíveis comigo e sem contar que é o que paga minhas contas, é o que paga minha faculdade, então nos ajudamos.

Você é remunerada em todas essas colaborações?

Na Carta tenho uma coluna mensal e não sou remunerada, na Ponte e no Voz, sim.

Você fala e escreve sobre temas que mobilizam. Já passou por alguma situação de críticas pesadas, ameaça, violência ou mesmo pequenas polêmicas?

Já. Ano passado em outubro eu fui agredida por um eleitor do Bolsonaro na rua, lá em Belo Horizonte. Saiu em vários jornais, inclusive no próprio O Globo, escreveram uma carta pra mim, bem bonita, se solidarizando comigo. Foi uma agressão física, uma agressão verbal, fui chamada de macaca, de várias coisas e aí soltaram isso na imprensa porque eu tinha ligado pro meu editor e falado o que tinha acontecido.

Mas era alguém que te conhecia, das redes?

Não conhecia, não sabia que eu era jornalista. Mas a partir do momento que o caso ficou público, foi para alguns portais, as pessoas me acharam nas redes sociais. Inclusive sofri ameaças de morte, vários xingamentos no Twitter, no Facebook, até que chegaram no meu Whatsapp também, foi um processo muito pesado. Eu tinha acabado de voltar de uma experiência muito incrível que eu tive na Colômbia, fui trabalhar em Medelín com jornalismo de direitos humanos pelo Voz, participei do Festival Gabo e nem consegui aproveitar esse meu retorno porque foi logo depois, dois dias do meu retorno.

Quem mantém hoje o Voz das Comunidades?

A gente tem parceiros que financiam o nosso trabalho. Por exemplo, o jornal impresso a gente fecha com grandes empresas e publicidade, mas também com parceiros locais, empreendedores locais, claro que os preços são diferentes, mas no dia a dia tem sempre as pessoas que nos fortalecem, por vezes com equipamento, ou de outra forma. O Voz tem uma rede, o Renê conseguiu consolidar uma rede bacana. Não para pagar os jornalistas da maneira ideal, mas para ter o material, para garantir o aluguel do espaço sim.

Voltando à agressão...

Eu já recebi alguns ataques pequenos, mas nada que me incomodou e essa foi a primeira vez que me senti atacada e as pessoas entendendo que trabalho com jornalismo começaram a me perseguir nas redes sociais. E aí eu tenho trabalhado para minhas redes ficarem cada vez mais saudáveis, eu não respondo haters.

Ignora mas não apaga, deixa lá.

O que eu faço: denuncio para a rede e bloqueio a pessoa, se não a gente pira. A gente já trabalha com questões tão pesadas no dia a dia e aí vem alguém te apavorar e né... então quando isso aconteceu eu também não respondi, mas usei isso a meu favor, mostrando para as pessoas quem sou eu, o que eu faço. Essas pessoas estão me atacando, mas também tem gente me procurando pra entender o caso, então vou mostrar pra essas pessoas que tem uma matéria minha publicada. Lembro que a Míriam Leitão me procurou, me mandou um WhatsApp super preocupada, disse que chorou inclusive quando ficou sabendo da situação. Então fui mostrando para as pessoas que essa é a Gabi Coelho, faço um trabalho bacana e eu não vou usar dessa situação ruim para virar a pessoa que foi agredida pelo eleitor do Bolsonaro. As pessoas nem me veem assim e eu nem quero ser vista assim. Aconteceu, mas eu não quero ser vista como essa pessoa, eu faço um trabalho sério, bacana e eu não vou me privar disso.

Alguma reportagem em especial te marcou mais que as outras?   

Quando comecei no jornal, vi que os bastidores são bem mais interessantes do que qualquer texto publicado. Principalmente porque a gente está ali o tempo inteiro, eu já virei amiga de pessoas que eu entrevistei e isso aconteceu de uma forma muito natural.

Eu entrevisto hoje o dono da padaria e amanhã estou lá tomando um café na mesma padaria. A gente não se perde, sabe. Tem isso no jornalismo, a gente entrevista alguém e nunca mais vê essa pessoa. Na favela não, na periferia não. Porque a gente está convivendo naquele espaço também. Pra mim os bastidores sempre marcam mais, mas o trabalho mais recente que eu gostei de ter feito não foi nem uma reportagem foi um documentário que me fez sair da minha zona de conforto.

Fui trabalhar com uma pauta que nunca tinha trabalhado que é o ambientalismo, mas que eu senti ali naquele momento que eu era uma pessoa que conseguia pautar isso e fazer com que a gente mostrasse pra dentro e pra fora das periferias o que tem sido feito de positivo em sustentabilidade, porque acho que a gente fala pouco disso, fazendo até uma autocrítica.

Então o documentário Voz Ecoa, que é sobre meio ambiente e sustentabilidade na favela, ele é o meu trabalho mais recente e pelo qual estou mais apaixonada, que me tirou da zona do conforto, que me abriu os olhos para o meu próprio estado, Minas Gerais, tenho trabalhado com a questão de racismo ambiental fazendo uma análise com o rompimento das barragens em Minas, por exemplo.

A gente tem dados de pessoas em Brumadinho que 63% dos corpos encontrados eram de pessoas não brancas, então a gente tem um racismo ambiental declarado. Quando uma pedra lá no Vidigal desaba, e o prefeito não vai lá amanhã, não vai semana que vem nem mês que vem é um racismo ambiental, e a gente tem que falar disso. É um trabalho que tem me desafiado bastante, que eu tenho gostado. Não quero ser a jornalista especializada em ambientalismo, mas é preciso falar sobre isso, estou inserida nesse território, esse território sofre com isso mas também produz coisas muito positivas.

Como avalia seu trabalho no Voz?

Sempre falo pra gente sair da zona de conforto, sempre, desde que entrei no jornal essa é a minha missão ali dentro. Entrei numa equipe com cinco a sete pessoas, e hoje são 22 pessoas depois que comecei a coordenar. E nessa equipe a gente fala de economia, de segurança pública, de meio ambiente, de vários assuntos fugindo desse clichezão de favela que as pessoas estão acostumadas a ler.

Aí criei uma coluna de meio ambiente e sustentabilidade, no Voz, porque senti que precisávamos falar sobre isso, não sou eu que escrevo é a Beatriz Diniz e a Juliana Oliveira que agora já não esta mais com a gente mas começou junto, e tem a Maria Clara que é da Rocinha, são pessoas que estudam para isso, para falar sobre isso com propriedade.

Depois da criação da coluna a PUC-RJ me procurou para fazer um experimento social. Estavam muito abertos, queriam fazer um audiovisual, mas não sabiam o que seria, sabiam que era um experimento social com favela, sempre procuram a gente pra isso.

E eu pensei 'eles tem esse material, editam muito bem, vou unir o útil ao agradável, já tinham um projeto fechado para documentário'. Então escrevi todo o projeto, apresentei para a PUC e aí a gente fez essa parceria. Tudo era aprovado por mim, fui a única envolvida pelo Voz, pela PUC a gente tem a Raíssa, a Gabriela, são pessoas da empresa júnior da PUC que estudam cinema e comunicação e vimos uma potência nessa união da academia com a comunicação comunitária.

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