28/06/2019

Jornalismo transnacional é ferramenta importante em casos de corrupção

Colaboração entre jornalistas na América Latina sofisticaram apuração na Operação Lava Jato

Por André Catto
Edição: Leandro Melito


Da esquerda para a direita: Thiago Herdy (O Globo/Época/Abraji), Milagros Salazar (Convoca), Guilherme Amado (Época) e Emilia Diaz-Struck (ICIJ)
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
A colaboração transnacional entre jornalistas é essencial para o esclarecimento de fatos que ultrapassam fronteiras. Essa foi a análise do vice-presidente da Abraji, Guilherme Amado, em painel sobre a atuação da imprensa nas investigações da Operação Lava Jato na América Latina.

“É um modelo importante porque aumenta o impacto e a pressão sobre governos e empresas. Quando as multinacionais praticam corrupção e são denunciadas globalmente, elas se mexem muito mais”, analisou.




“Existem barreiras culturais, religiosas, éticas e de línguas. Portanto, quando os jornalistas conseguem criar empatia com todas as nacionalidades e criar uma rede de colaboração, mais aptos estão para fazer o jornalismo investigativo transnacional”, complementou.

Maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro já registrada no Brasil, a Lava Jato se desdobrou pela América Latina, abrangendo países como Colômbia, Panamá, El Salvador, Bolívia e República Dominicana, além do Peru, que tem quatro ex-presidentes investigados, todos por envolvimento com a empreiteira Odebrecht.

“Diferentemente do Brasil, as investigações sobre a Lava Jato no Peru começaram pelos jornalistas. Somente depois a Justiça começou a atuar na operação”, lembrou a diretora do site peruano de jornalismo investigativo Convoca, Milagros Salazar.

Ela também destacou a prisão de ex-chefes de Estado do país no âmbito da operação, citando como exceção Alan Garcia, que se suicidou com um tiro na cabeça em abril deste ano, após receber ordem de prisão temporária.

“A Lava Jato se expandiu principalmente quando documentos e vídeos dos executivos envolvidos começaram a vazar. Esse é um dos motivos para as abordagens e investigações fora do Brasil começarem pelos jornalistas”, complementou o ex-presidente da Abraji (2016-2017) Thiago Herdy, que relembrou a delação do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa como a primeira da operação.

A editora de investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), Emilia Diaz-Struck, falou sobre a dificuldade de organizar e compartilhar um lote de arquivos obtido por jornalistas.

“Tínhamos diversos documentos e não sabíamos como compartilhar de forma segura. Então, usamos o [sistema] Datashare. Com ele, integramos os dados e reconhecemos diretores, empresas e pessoas [envolvidas com a construtora Odebrecht]”, disse. A empreiteira brasileira foi uma das principais envolvidas na Lava Jato no país.

Diaz-Struck participou da organização do lote de 13 mil documentos compartilhados entre jornalistas, que mostra diversas movimentações financeiras no âmbito da Lava Jato. No pacote, constam 446 depósitos e recebimentos vinculados a 159 contas diferentes, em um total de 89 bancos, em pelo menos 33 países. As investigações seguem em andamento.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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