29/06/2019

Livros relatam os erros e as consequências do caso Escola Base

25 anos depois, filho do casal acusado injustamente revela o seu lado da história


Por Amanda Stabile e Joyce Moura
Edição Ronald Sclavi

Ricardo Shimada (filho do casal do caso Escola Base), e Emílio Coutinho, autores dos livros apresentados no painel. Foto: Augusto Godoy.
A meta de Ricardo Shimada é colocar um exemplar do livro que acaba de escrever em cada universidade do Brasil, para que todos conheçam as consequências do caso que ficou conhecido como "Escola Base" e não repitam os mesmos erros. “A imprensa estava muito ansiosa por dar o furo. É melhor retardar a vitória do que profanar seu valor”, destaca. 

"Atrás de uma notícia sempre tem uma pessoa”, é o que alerta Shimada, filho de Icushiro e Maria Aparecida Shimada, donos da Escola Infantil Base e vítimas de um dos maiores erros jornalísticos cometidos pela imprensa brasileira.
Depois de 25 anos, a história da sua família já ganhou as páginas de vários livros. Um deles, é o dele próprio. Recentemente, apoiado por um professor de jornalismo, decidiu escrever um livro contando o caso a partir da sua perspectiva. “Eu quero mostrar com o meu livro o cuidado que a imprensa tem que ter para não acabar com a vida das pessoas”, explica. 

Shimada lembra a última frase que ouviu da sua mãe: “Agora que meu nome está limpo, eu posso descansar em paz - aproveitem o dinheiro”. Sete anos após, o pai também morreu. Seus pais foram acusados por duas mães de alunos, entre outras coisas, de abusarem sexualmente alunos da escola. Também foram vítimas da denúncia o motorista da kombi escolar e sua esposa, além dos pais de uma das crianças. 


O caso foi coberto exaustivamente pela imprensa que reproduziu as acusações policiais que resultaram em um inquérito arquivado pelo Ministério Público. Entretanto, o sofrimento causado pela exposição dos acusados como molestadores das crianças foi devastador. “Minha mãe tinha a intenção de comprar o prédio da escolinha, abrir filiais, aumentar o grau de ensino da escola”, conta Shimada. 

A saúde psicológica de sua família foi abalada. “Eu tive depressão, minha mãe e meu pai também”. Depois de muitas idas e vindas, finalmente os Shimada foram indenizados, mas já era tarde.


Com apenas 14 anos, Shimada assistiu sua família perder tudo e por anos se recusou a falar sobre o trauma. “Eu vi tudo acontecer. Eu avisei meus pais da prisão preventiva”, relembra. 

Da biblioteca para a sala de aula
Outro livro escrito sobre o caso foi o de Emílio Coutinho, que em 2015 escreveu como Trabalho de Conclusão de Curso o livro-reportagem Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira. “Eu queria dar voz a cada um deles”, justamente para refletir sobre como o caso impactou os personagens dessa cobertura. 

Agora, Coutinho planeja uma nova obra, desta vez falando especificamente sobre a cobertura jornalística do caso. “Quero entender como estão os jornalistas que protagonizaram essa cobertura”, enfatiza. 

Para escrever o livro, Coutinho se inspirou em outro jornalista, que também estava presente neste painel da Abraji. Ele conta que uma de suas principais fontes de pesquisa foi o livro “Caso Escola Base - os abusos da imprensa” (1995), escrito por Alex Ribeiro, hoje repórter especial do Valor Econômico. 

No livro, Ribeiro tentou reconstituir o que aconteceu antes de a polícia e a imprensa chegarem na escola para tentar entender o que de fato tinha acontecido. “Os erros foram cometidos em princípios muito básicos do jornalismo que não foram seguidos”, conta Ribeiro. 

Outro problema, avalia o autor, foi a dependência dos repórteres de fontes oficiais, informações em off e relatos de pessoas que tinham interesse em se autopromover. 

Mesmo assim, o jornalista defende a prática profissional e reconhece que “os profissionais que cobriram o caso estavam imbuídos do melhor espírito”. Para Ribeiro os erros não foram intencionais. “Havia uma preguiça que levava os jornalistas a confiar demais em fontes oficiais”, alerta. 

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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