13/09/2020

Ao menos 31 jornalistas morreram por covid-19 em 2020

Levantamento da Abraji ainda detectou 27 mortes por outros motivos; entre eles, um caso de assassinato, do repórter Léo Veras

Por: Luísa Cortés

Edição: Raquel Brandão


Léo Veras jantava em casa com a família quando levou 12 tiros de pistoleiros, no dia 12 de fevereiro de 2020. O repórter, cujo assassinato é investigado pelo Programa Tim Lopes, uma rede de apoio que apura casos de jornalistas assassinados, já sabia que seria morto, desde pelo menos 2017, em decorrência de sua investigação sobre o narcotráfico na fronteira Brasil-Paraguai.

“Que não seja com tantos disparos de fuzil, porque aqui se o pistoleiro quer ter matar ele vem na sua porta, manda você abrir e vai te dar o disparo, espero que seja só de um disparo para não estragar tanto a pele”, disse em um documentário do programa em 2017.

Veras é um de ao menos 59 jornalistas mortos em 2020. O único assassinado, segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que detectou 31 vítimas fatais do coronavírus entre os profissionais. 

“Acreditamos que a melhor maneira de homenagear essas pessoas é seguir produzindo bom jornalismo”, afirmou o presidente da entidade, Marcelo Träsel, em homenagem aos colegas de profissão, promovida pelo 15ª Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. 

Entre os jornalistas homenageados, encontram-se nomes como o de Rodrigo Rodrigues, do SporTV, e Beto Resende, que atuou nos principais jornais de Pernambuco e mantinha o canal do YouTube Dardos e Ideias. Ambos faleceram por covid-19, doença que tomou o mundo em 2020.

De acordo com o site Press Emblem Campaign, ao menos 261 jornalistas morreram em decorrência do novo coronavírus em 43 países. A lista inclui fotógrafos, radialistas e outros profissionais da imprensa.

Mas nem todos foram vítimas da doença. Assim como Léo Veras, ao menos 27 jornalistas morreram neste ano, no Brasil, de outras causas, afirma a Abraji. Aqui, as histórias de alguns desses profissionais.

Washington Novaes, “Jornalista com inicial maiúscula”

Referência na cobertura de meio ambiente, Washington Novaes não gostava de ser chamado de “jornalista ambiental”. Era apenas jornalista – “com inicial maiúscula”, como aponta Dal Marcondes, presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. 

Dentre seus trabalhos, Novaes foi responsável pela série documental Xingu, a terra mágica, realizada em 1985 e exibida na extinta TV Manchete. A série, em que fez uma imersão por diversas etnias da região do Xingu, na Amazônia, ganhou uma continuação em 2007, com Xingu, a terra ameaçada, capítulo especial sobre o cacique Raoni Metuktire.

Brevemente secretário do Meio Ambiente pelo Distrito Federal (entre 1991 e 1992), voltou ao jornalismo com uma série de artigos sobre a Eco-92, conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre jornalismo responsável, trabalho que lhe rendeu um Prêmio Esso. 

Alfredo Sirkis, “basicamente isso, um contador de histórias”

Assim se definiu o jornalista em entrevista ao jornal O Globo. O motivo: lançamento de seu último livro, Descarbonário, que narra uma parte de sua vida multifacetada: foi pioneiro na luta pela preservação do meio ambiente no Brasil, um dos fundadores do Partido Verde (PV) e chegou a concorrer à Presidência da República pelo pela sigla, em 1998. 

Como secretário do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, cargo que ocupou em 1996, foi responsável pelo reflorestamento de 660 hectares (mais de 6 milhões de m2 de área desmatada), em 47 comunidades da cidade, além da construção de 80 quilômetros de ciclovias na cidade.

Antes disso, participou do movimento de oposição da Ditadura Militar de 1964 e viveu durante oito anos exilado no Chile, na Argentina e em Portugal. Voltou em 1979, com a Lei da Anistia. À época, escreveu Os carbonários, livro sobre essa parte da sua história que levou o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura brasileira. Passou por redações como IstoÉ e Veja, além de trabalhar como roteirista na TV Globo, na série Tele-tema.

Gilberto Dimenstein, que fez “da vida um laboratório”

Em assunto de redação, passou por diversas: O Globo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Última Hora, revistas Educação, Visão e Veja. Gilberto Dimenstein foi diretor da Folha de S. Paulo, que lhe proporcionou “fazer da vida um laboratório”. Mas a experimentação foi além.

Teve forte atuação em pautas de direitos humanos. Nos trabalhos jornalísticos, essa pesquisa resultou no livro Meninas da Noite – A Prostituição de Meninas Escravas no Brasil, sobre a violência e prostituição de crianças na Amazônia.

Trabalhou também com ações sociais, como a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), presente em diversos países da América Latina, e a ONG Escola Aprendiz, em diversos estados brasileiros – modelo considerado “um exemplo de inovação comunitária” pela Escola de Administração de Harvard.

Segundo o Ranking J&Cia, Dimenstein é um dos Top 10 mais premiados da Região Sudeste, em classificação de 2016. Muitos dos prêmios foram conquistados com o Catraca Livre, veículo que criou 2008.

Fica a homenagem e solidariedade às famílias dos jornalistas:

Adelson Barbosa

Alberto Rezende

Alexandre Rangel

Alexei Divino 

Alfredo Menezes 

Alfredo Sirkis

Amaral Cavalcante 

Antônio de Brito Júnior 

Armando Gomes

Cadu Cortez

Carlos Alberto Pereira da Silva

Celso Pinto

Chico Alves

Costa Filho

Edegar Schmidt

Edvaldo Silva

Eledilson Colares

Elson Caldas

Emery Jussier Costa

Evandro Cruz

Fabiano Fresneda

Flávio Portela

Gilberto Dimenstein

Inaudete Amorim

José Augusto Nascimento Silva

José Paulo de Andrade

José Raimundo Alves

Kibb Barreto

Laerte Fernandes

Lauro Freitas Filho

Léo Veras

Letícia Neworal Fava

Levi Mulford

Luis Alberto Volpe

Luís Edgar de Andrade 

Luiz Maklouf Carvalho

Marcello Bittencourt

Márcio Garçone

Marcos Dublê

Mário Marques Nunes Jr

Mariana Kalil

Milson Coutinho

Napoleão Saboia

Nirlando Beirão

Paulo Edson

Roberto Augusto dos Santos

Roberto Fernandes 

Robson Thiago Mesquita

Rodrigo Rodrigues

Sérgio Noronha

Tadeu Nascimento

Valdemir Santana

Valdi Coutinho

Virgínia Cavalcanti

Walter Souza

Washington Novaes

Wilson Souza

Xênia Bier

Zildetti Montiel 




Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Ilustração: Camila Araujo/Mikael Schumacher
Criação de arte: Mikael Schumacher
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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