12/09/2020

Cobertura do coronavírus no Brasil exige equilíbrio físico e mental dos jornalistas

Com o avanço da pandemia, a imprensa se tornou uma fonte segura de informação e prestação de serviço

Por: Aelson Linardi e Carlane Borges

Edição: Vitória Macedo

A Covid-19 apresentou ao jornalismo desafios que não faziam parte da rotina. Uma das atividades essenciais da profissão, ir à rua, se tornou um problema para as redações, pelo risco de exposição ao vírus. A coragem para seguir trabalhando foi relatada na mesa “Diários da tragédia: repórteres e a cobertura de Covid-19”, durante o Congresso da Abraji, no sábado (12). 

Para Maiá Menezes, do jornal O Globo, Pedro Borges, da agência Alma Preta, e Edmar Barros, fotógrafo freelancer de agências de notícias nacionais e internacionais, os contratempos também falam alto: tomar todos os cuidados necessários é só o começo. 

Depois disso ainda há desgaste mental e as dificuldades de acesso a dados importantes para a apuração jornalística.

Quando o estado do Amazonas se tornou o epicentro da doença na região norte, Edmar Barros, amazonense, registrou o luto causado pelo alastramento do vírus. Ele relata que, quando a explosão de mortes tomou conta de Manaus, os coveiros do maior cemitério da capital sequer tinham equipamentos de proteção individual. “Era um descaso muito grande com os profissionais”, afirma. 

Para o fotógrafo, os maiores desafios enfrentados na cobertura surgiram com as primeiras mortes. Ninguém sabia quais seriam os desdobramentos da doença,  por isso os protocolos impediam as famílias de fazerem o velório com muitas pessoas. 

Barros foi o único profissional que registrou o enterro da primeira morte pelo coronavírus em Manaus e as fotografias capturadas estamparam vários jornais do Brasil e do mundo. 

O emocional do jornalista também foi abalado ao fazer imagens tão memoráveis, como o registro de corpos sendo guardados em contêineres frigoríficos devido a superlotação das funerárias e dos cemitérios.

Já a cobertura de Pedro Borges, nas ruas da cidade de São Paulo, teve um recorte racial. Para não expor a reduzida equipe da agência ao perigo, o jornalista se responsabilizou por ir a campo. “Por mais que as pessoas pudessem me considerar um ET, eu saia com viseira, máscara e não tirava se não fosse para trocar com regularidade. Não levava as mãos ao rosto, usava luvas em alguns lugares e sempre tinha álcool em gel comigo”, relata. 

Ir às ruas fez com que Borges enxergasse além dos números. Ele traz dados importantes sobre as mortes e infectados em diferentes bairros da capital, sobretudo naqueles que possuem maior diferença social e racial. Segundo levantamento do Alma Preta, o Morumbi, bairro de classe média de São Paulo, teve altos casos de pessoas infectadas, mas apresentou número de óbitos muito inferior a região da Brasilândia, na periferia da zona norte da capital paulista, onde há um número maior de negros. 

Borges ainda salienta que, no início da pandemia, a cobertura da imprensa tradicional estava muito pautada em números gerais como mortos, infectados e recuperados, sem recorte racial. “A gente tem um problema histórico e proposital que é a questão da ausência de dados. 

Historicamente, é a política do mito da democracia racial que se transformou mais do que nunca em política de governo”, pontua. Segundo ele, esses dados vieram a partir da pressão da sociedade civil, principalmente do movimento negro. 

Maiá Menezes, que faz cobertura tradicionalmente de política, buscou um recorte diferente. A “matéria da sua vida”, como chamou, aconteceu dentro de uma UTI para pacientes com coronavírus no hospital CopaStar, em Copacabana, região nobre do Rio de Janeiro. Menezes acompanhou a rotina dos profissionais da saúde no combate da doença.

Dentro do hospital, a jornalista se equipou com material de proteção mais avançado disponível e acompanhou histórias muito particulares que, segundo ela, sem o instrumento do jornalismo, seriam muito difíceis de descrever. “Presenciamos uma morte. Foi uma experiência muito tocante, porque a gente se sente espectador da tragédia”, confessa.

Os palestrantes têm em comum, além da cobertura da pandemia, a opinião de que o jornalismo profissional e sensível nunca foi tão necessário como agora. “É uma história que precisa ser contada, e nós estamos aqui para fazer isso”, finaliza Maiá Menezes.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Charge: Mikael Schumacher
Criação de arte: Mikael Schumacher

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

 

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