13/09/2020

Como usar de ferramentas Open Source em reportagens?

Repórteres de dados demonstram como é possível garimpar dados na internet com o uso de ferramentas gratuitas especializadas em apurações investigativas

Por: Artur Alvarez e Isabella Vieira

Edição: Artur Ferreira


Com a presença cada vez maior de dados de interesse público disponibilizados na internet, as técnicas de Open Source Intelligence (OSINT) - em português, Inteligência de Fontes Abertas - surgem como importantes ferramentas aliadas em apurações de reportagens investigativas, e de forma gratuita.

O uso dessas ferramentas permite que repórteres de dados, como Luiza Bandeira e Eduardo Goulart, obtenham informações vitais para suas investigações. Na oficina "Open source intelligence (OSINT) como aliada do jornalismo", Luiza e Eduardo mostraram como foi possível integrar o OSINT às técnicas mais usuais de apuração jornalística em alguns de seus trabalhos.

Luiza Bandeira, pesquisadora na Atlantic Council e jornalista com passagens pela BBC, Folha de S. Paulo e Nexo, conseguiu recriar a rede de páginas e perfis apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro que o Facebook retirou no ar em julho deste ano. Eduardo Goulart, jornalista freelancer responsável pela newsletter De Olho Nos Dados e colaborador do site The Intercept Brasil, utilizou as técnicas de OSINT para descobrir a identidade do homem que depredou cruzes de um protesto organizado pela ONG Rio de Paz na Zona Sul do Rio de Janeiro em homenagem aos mortos por Covid.


Open Source Intelligence: o que é e como utilizá-lo


O OSINT pode ser definido por uma série de técnicas para coletar, analisar e apresentar informações públicas encontradas em plataformas de fontes abertas - ou seja, dados que estão disponíveis de forma pública, ao contrário daqueles originados de fontes clandestinas e ocultas. "Eu gosto de pensar no OSINT como um quebra-cabeça, que só ganha sentido quando a gente consegue encaixar as peças", afirmou Goulart.

As diferentes ferramentas de OSINT podem ser aplicadas em motores de busca aplicadas através do Google e em redes sociais como Facebook, Twitter, Instagram e Linkedin. Goulart atribui a importância da aplicação do OSINT com uma fala de Michael Bazzell, autor referência no tema: “Informação não é inteligência até que tenha contexto”.

Uso das ferramentas nas apurações de reportagens investigativas


Durante a oficina, os palestrantes apresentaram uma série de ferramentas que foram fundamentais para suas próprias investigações e que podem ser utilizadas por outros jornalistas de forma acessível e gratuita. Os recursos que deram início às investigações foram os operadores de busca avançada do Google e Twitter. Essas técnicas permitiram que fossem encontrados sites, documentos e tweets acerca do tema de forma refinada.

Na apuração de Luiza acerca das redes bolsonaristas, o Facebook serviu como plataforma central. Segundo a jornalista, quando a investigação acontece no Facebook, é importante o uso da seção "Transparência da Página" que expõe informações relevantes sobre as páginas a serem investigadas. Também citou o CrowdTangle, que mostra detalhes de engajamentos com matérias específicas, o Graph.Tips para busca por perfis fakes e duplicados e o InVID para buscar fotos em diferentes fontes.

Instagram é uma das redes mais difíceis de se investigar, porque possui menos informação pública. A única forma de investigação é por meio da análise do código fonte da página do perfil a ser analisado. Quanto ao Twitter, as ferramentas que facilitam seu monitoramento e análise, além do acesso a informações sobre um usuário, são o Tweetdeck e TruthNest.

O Linkedin surge como uma ferramenta muito rica para conseguir contatos para apuração. A extensão Prophet faz uma busca avançada do Linkedin e permite encontrar uma série de nomes que podem ser úteis em apurações e a Lusha mostra os contatos vinculados ao perfil do Linkedin, como e-mail e telefone, facilitando o processo de entrar em contato com fontes, assim como o ContactOut.

Para investigação de sites, o Whois foi destacado como uma importante ferramenta, pois mostra informações relevantes como quem fez o registro do site, além do o Dnslytics, que permite investigar relações entre diferentes sites por monetização ou tracking e o RiskIQ.

Outras plataformas alternativas, como a página de Reconhecimento Facial disponibilizado pelo Microsoft Azure, o Google Maps e o Brasil.io, repositório de dados públicos, também foram importantes para as investigações.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Miréia Figueiredo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário