11/09/2020

Doxing representa risco à integridade de jornalistas

Tática de divulgação de dados pessoais é utilizada para afetar a credibilidade de profissionais de imprensa e intimidar grupos minoritários

Por: Gustavo Honório, Rafael de Toledo e Wender Starlles
Edição: Wender Starlles

Você pode até não estar familiarizado com o termo, mas com certeza já ouviu ou foi vítima de doxing. A prática, cada vez mais comum contra jornalistas, consiste na publicação de informações privadas ou sensíveis na internet a fim de prejudicar, intimidar e até mesmo censurar a liberdade de expressão de profissionais de imprensa. 

Para falar sobre o tema na sexta-feira (11), primeiro dia do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Neena Kapur, gerente de Inteligência de Segurança do The New York Times, contou à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, quais são os principais métodos por trás do doxing e como as pessoas podem tomar medidas de segurança digital. 

Categorias de informações online

“A gente não sugere que ninguém se apague da internet. A ideia é pensar no que estamos compartilhando e ter controle sobre essa informação”, explicou Kapur. Essa regra se aplica diretamente a jornalistas, que precisam ficar mais atentos a quais dados pessoais estão disponíveis em suas redes sociais, principalmente, antes de publicarem materiais delicados.

Geralmente, a porta de entrada para a coleta de dados privados são redes sociais e grupos de discussões. Segundo Kapur, “quando você sofre doxing, outros tipos de ameaças podem surgir, e isso inclui até mesmo a possibilidade do comprometimento do acesso a senhas”. 

Existem três categorias que ajudam a entender melhor quais informações devem ou não ser compartilhadas na internet. Na lista vermelha, estão aquelas que são difíceis de mudar e precisam estar protegidas, como CPF, endereço pessoal e contas bancárias.

Na amarela, ficam as genéricas, que se forem divulgadas não apresentam risco iminente, como número de telefone e cidade. Por último, na lista verde, estão os itens como curtidas, fotos e vídeos que não expõem o usuário a uma situação embaraçosa ou revele algo privado. 

O que são os recursos de autodoxing e como utilizá-los?

Kapur sugere algumas medidas que, reunidas, formam o guia de autodoxing. Ou seja, o usuário busca por lugares onde pessoas mal-intencionadas conseguem encontrar informações a seu respeito. Com isso, é possível medir o grau de exposição online para, assim, proteger-se previamente:

- Verifique quais dados (nome, familiares, telefone) existem sobre você nos mecanismos de busca como Google e Bing. Se forem dados delicados, busque tirá-los do ar; 

- Acesse registros públicos de dados e, caso encontre informações atuais sobre você, solicite que retirem da rede;

- Redes sociais: recomenda-se ter duas contas, uma pessoal e outra profissional.

"Se alguém mal-intencionado não encontra informações sensíveis sobre você em duas horas, 90% deles vão desistir, partirão para um próximo alvo", diz Kapur.    

Apesar de serem profissionais resilientes, jornalistas sofrem desgastes emocional e físico quando se tornam alvos de doxing, e isso pode influenciá-los até mesmo na escolha de pautas. “Não há silenciamento, mas o que eu vejo é uma hesitação em cobrir determinados temas com base na reação que pode vir a acontecer", avaliou Kapur.

O que vítimas de doxing podem fazer

Mesmo com todas as medidas de prevenção, no entanto, as pessoas ainda correm o risco de terem dados expostos. A única solução possível é tentar reduzir os danos causados. A gerente de inteligência também menciona dicas essenciais de como lidar com ataques para minimizar essas consequências:

- Silencie as notificações por algum tempo, não consuma todo o ataque que está recebendo;

- Caso seja necessário checar os ataques, foque em coisas específicas, como interações passíveis de boletim de ocorrência, por exemplo;

- Peça ao seu editor um tempo de relaxamento, de alívio mental;

- Não interaja com pessoas que estão te atacando.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher. 

Criação de Arte: Isabella Vieira

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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