12/09/2020

Em meio à pandemia, 'Le Monde' inova em formatos de notícias

Em Masterclass, a vice-chefe do jornal francês Cécile Prieur fala sobre novas estratégias e modelos de negócio adotados pelo veículo

Por André Martins e Mikael Schumacher
Edição: Luísa Cortés


Vídeos curtos no TikTok, mensagens pelo WhatsApp, podcast exclusivo: essas foram algumas iniciativas de um dos principais jornais da França para disseminar notícias no contexto da pandemia da Covid-19.

Em meio à crise sanitária, o jornal francês Le Monde fez uso de uma página com atualizações ao vivo, em que trazia as notícias quentes e interagia com o público respondendo perguntas.

“Não é porque é o Le Monde, que o jornalismo precisa ser chato e sério. É preciso democratizar a informação”, disse Cécile Prieur, vice-chefe do veículo, entrevistada hoje (12) pela diretora da Abraji Natalia Mazotte, na mesa Como o jornal francês Le Monde vem se preparando para sobreviver, realizada no 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.


Além da cobertura clássica, o jornal mantinha outro espaço, uma live, com conteúdo bem-humorado e descontraído, como dicas de filmes, vídeos e receitas, para gerar um senso de comunidade entre os jornalistas e os assinantes. Com espaço para o público compartilhar suas experiências no isolamento social, a ideia da página ‘Nossas vidas confinadas’ era descontrair o público em meio às tantas “notícias ruins” do cotidiano.

Esse tipo de publicação gerou debates com os repórteres mais antigos, que questionaram se aquilo também era jornalismo. “Manter a qualidade do jornalismo não significa manter o mesmo modelo de negócio e o mesmo público para sempre”, pontuou Cécile Prieur. Os resultados dessas novas ferramentas foram expressivos: a página de hard news rendeu uma média diária de 1 milhão de visitas, e a outra, mais descontraída, 100 mil visualizações por dia.

Outras inovações, as diferentes redes sociais do Le Monde


A rede social Tik Tok foi outra aposta do jornal francês. O Le Monde criou um perfil na rede, em junho, e a empreitada ficou sob a responsabilidade de uma antiga editoria do jornal, que cuidava da conta no Snapchat. Acostumados com uma abordagem mais divertida e com a produção de vídeos curtos, começaram a explicar notícias e tópicos em destaque de um jeito mais descontraído, condizente com a plataforma.

Prieur afirma que, mais do que querer atrair o público jovem, o jornal francês quer educá-lo para a notícia. Segundo a vice-chefe, o caminho para isso é oferecer conteúdo gratuito na plataforma em que ele está consumindo, estabelecendo uma relação de maior proximidade e confiança com os novos usuários.

Além do TikTok, o jornal criou outros formatos para cobrir a pandemia da Covid-19. Um deles foi o “Pandémie”, podcast que trata de questões como vacinas, tratamentos e crises sanitárias da história. Esse novo canal conseguiu atrair tanto os assinantes quanto o público geral das redes sociais.

A outra iniciativa foi a utilização de threads de WhatsApp, mensagens diárias sobre as principais notícias, adaptadas à linguagem característica da plataforma e que se aproveitam da alta disseminação de conteúdo na rede. Em três semanas de atuação, as threads acumularam 25 mil inscritos.

O Paywall e o público do Le Monde


O Le Monde aposta em um modelo de negócios em que 50% das matérias são barradas pelo paywall e a outra metade é de acesso gratuito. Para a vice-chefe do jornal, essa é uma estratégia em que todos ganham: ao dar acesso gratuito em plataformas, cria-se um canal em que o público pode ser atraído para o conteúdo pago, resultando em novas assinaturas.

A maioria das matérias mais aprofundadas, que vão além do “últimas notícias”, é paga. Para balancear isso, há uma editoria chamada “Les Décodeurs” (“Os decodificadores”), que traz matérias com jornalismo de dados, infográficos, checagem de fatos e diagramas explicativos. É uma forma de atrair mais pessoas e colaborar para o acesso à informação sem comprometer a sustentabilidade do jornal.

Já nas redes sociais, grandes notícias compartilhadas sempre acabam trazendo novos assinantes, conta Prieur. Apesar disso, a vice-chefe do jornal sabe que os consumidores daquele conteúdo não são necessariamente assinantes: “Estar ali é para abrir a discussão”, lembra. "Muitas vezes, recebemos muito mais barulho vindo das mídias sociais do que do nosso público tradicional, mas isso não significa que eles não estejam prestando atenção. É só uma maneira diferente de abordar".


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Cassiane Lopes

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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