13/09/2020

Jornalismo local também enfrenta fenômeno da polarização

Tecnologia muda a relação dos veículos locais com o público, que não só recebe a informação, mas se transforma em uma espécie de editor

Por: Lala Evan

Edição: Vitória Macedo


De 2004 até os dias atuais, muitas inovações tecnológicas significativas aconteceram no cenário jornalístico. Com a crescente polarização política nas redes sociais, a interação de veículos locais com a sua audiência sofreu mudanças. É o que apontam Érico Firmo, do jornal O Povo do Ceará e Dagmara Spautz, da NSC de Santa Catarina, no painel “Os efeitos da polarização na cobertura política local”, mediado pelo jornalista Thiago Herdy, do jornal O Globo.

O avanço da tecnologia permitiu às redações produzirem conteúdos mais elaborados. Firmo relata que hoje O Povo consegue fazer produções audiovisuais, por exemplo. Isso forneceu ao jornalismo, na opinião dele, uma riqueza de linguagens. Além disso, houve aumento da participação dos leitores, que ficou mais acessível e, com a polarização política, ganhou ainda mais peso.

No entanto, quando o leitor faz comentários enfurecidos sobre uma matéria, o jornalista tenta entender a revolta e analisar se o movimento foi orquestrado. O público pode, de alguma forma, ajudar a tomar caminhos e abordar pautas. O cearense conta que chegou a mudar rumos de investigações pela pressão do público. “O feedback do leitor ajuda a seguirmos um caminho, entretanto, temos os fenômenos das redes sociais, que geram ruídos”, ele avalia.

Além disso, Spautz ressalta algo interessante em relação a esses comentários: as mensagens negativas normalmente são públicas, enquanto os elogios são enviados no privado. Ou seja, há uma promoção da autocensura. “As pessoas estão com medo de manifestar determinadas opiniões”, lamenta. Mas, a jornalista ressalva: “não deixamos o leitor pautar”. O NSC não adere a essas demandas do público e segue sua própria linha editorial.

No jornal O Povo sempre foi muito politizado. Algumas bandeiras são claramente estabelecidas como a LGBTQI+, meio ambiente, a questão dos direitos das mulheres e do racismo. Todos esses temas, segundo Firmo, não eram tidos como polêmicos. “A forma como essas questões são recebidas mudou muito”, afirma ao relatar que para alguns leitores o jornal passou e ser visto como inimigo. “A manifestação pública é violenta. Muitas vezes a pessoa não tem a noção de que há um interlocutor”, complementa.

A polarização fez com que os leitores passassem a exigir do veículo pautas apenas daquilo que concorda. Como se o jornal fosse um tipo de lâmpada de desejos. Quando contrariados, acabam tentando tirar o crédito do trabalho jornalístico.

Spautz afirma que não apenas a audiência, mas as fontes também tomam esse posicionamento. Ela traz o caso de uma fonte que não gostou do jornal ter levantado também na matéria um opinião contrária, e acabou alegando que não daria mais depoimentos.

Mas, afinal, o que fazer para melhorar essa situação? O jornalista cearense diz que, para não haver o descrédito em suas matérias, passou a explicar os procedimentos da produção. Ele prefere utilizar aspas em vez do discurso direto, e até mesmo os áudios se tiver. Tudo para que as pessoas possam avaliar o que está sendo feito. “Os erros estão muito mais sob vigilância”, constata Firmo.

Pelo fato de as pessoas estarem consumindo mais notícias nas redes sociais, a catarinense aposta em lista de transmissão em aplicativo de mensagens para seus leitores. Além disso, o veículo tenta ocupar todo o espaço que consegue e abastecer as pessoas onde elas estão.   

Eleições municipais

Para as próximas eleições, as ações de enfrentamento da pandemia serão pontos centrais para a escolha do candidato, que, na opinião de Spautz e Firmo, terão reflexos nas urnas. Segundo o jornalista, a TV será tão determinante quanto antes. Já nos municípios menores, a panfletagem política ainda deve vigorar, principalmente com o barateamento e amplificação decorrente do meio digital. No interior isso se intensifica, porque a eleição de prefeito e vereador ganha um tom mais paroquial.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Mikael Schumacher
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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