11/09/2020

Jornalistas investigam confrontos entre milícias e o tráfico

A importância da investigação de jornalistas em comunidades do Rio de Janeiro se tornou referência até mesmo para a atuação de órgãos de segurança pública

Por: Beatriz Leite e Gabriela Carvalho 

Edição: Artur Ferreira

A falta de dados oficiais sobre a atuação da milícia no Rio de Janeiro foi um dos maiores desafios para a apuração de reportagens que buscam investigar a ação desses grupos. “Isso mostra o deserto que a gente vive e a total inoperância dos órgãos de inteligência dentro da segurança pública do Rio”, pontuou Igor Mello, repórter do UOL, que foi autor da série de reportagens “A mão invisível da milícia”, junto com Lola Ferreira, colaboradora do mesmo portal e integrante do coletivo Gênero e Número.

Além dos dois jornalistas, a mesa “Bastidores de reportagem: mapeando as milícias”, que integrou a programação desta sexta-feira (11) do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, contou com a mediação de Henrique Coelho, repórter do G1 Rio, que em 2018, realizou um levantamento inédito sobre quantas pessoas viviam sob a influência de milicianos no Rio de Janeiro, integrando a série de reportagens “Franquia do Crime”.

Mello contou que, após tentar buscar informações oficiais sobre tiroteios entre a milícia e agentes de segurança pública e descobrir que não havia esse levantamento oficial, se viu obrigado a recorrer somente as entrevistas com moradores e os dados obtidos pelo Laboratório de Dados sobre Violência Armada Fogo Cruzado.

O repórter também lembrou que a apuração realizada pelo G1, para a série “Franquia do Crime”, foi posteriormente usada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público. “Isso é um perigo porque a gente vê, em 2020, que a milícia está dominando muitíssimo e se não fosse a imprensa, a gente não conseguiria entender”, comentou Ferreira.

A atuação desses grupos paramilitares começou em 1997, em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando policiais e moradores decidiram se unir para impedir a ação de traficantes.

Mas esses grupos se expandiram e começaram a dominar e explorar territórios dentro de uma lógica de mercado, com atividades ilegais, como segurança privada, exploração de transporte alternativo, comércio de água mineral, botijões de gás e de cestas básicas, comércio ilegal de sinal de TV a cabo, além do tráfico de drogas. Hoje, a milícia já está presente em mais de 40% do território da capital carioca.

Uma das informações que Mello e Ferreira descobriram, pelas apurações, foi que o grupo - milícia ou tráfico - que domina a região determina a rotina de tiroteios no local envolvendo agentes de segurança pública. “Essa mão invisível da milícia opera de forma que determina como a polícia vai entrar em determinados territórios ou não, dependendo de quem comanda”, afirma Ferreira.

As comunidades vizinhas da Cidade de Deus e Gardênia Azul, em Jacarepaguá, por exemplo, são patrulhadas pelo mesmo batalhão policial, do 18º BPMM. A primeira, que é dominada pelo tráfico, teve cerca de 173 confrontos de julho 2016 a setembro de 2019; já a segunda, que é controlada pela milícia, teve apenas um no mesmo período.

Segundo Mello, dificilmente milicianos são presos em ações de patrulhamento da Polícia Militar, mesmo com atividades desses grupos sendo feitas com a presença de agentes de segurança pública à luz do dia. “A relação da Polícia Militar e da milícia deveria ser melhor apurada”, comentou Coelho.

Para Mello, a interpretação dos dados leva a crer que há indícios do favorecimento das milícias por parte da polícia. Segundo levantamento feito pelo UOL, com base em informações do Ministério Público, mesmo ocupando mais de 40% do território da capital carioca somente 88 (2,97%) dos tiroteios registrados entre agentes de segurança e milicianos foram contabilizados nessas regiões.

Enquanto isso, nas favelas dominadas pelo tráfico foram registradas, em três anos, mais de duas mil trocas de tiro envolvendo forças de segurança, ou seja, 78,8% dos tiroteios. Mas, segundo o jornalista, ainda não se sabe se há algum tipo de acordo ou algo estabelecido entre policiais e milicianos.

Dentre os questionamentos, Ferreira coloca em pauta não só a apuração do tema, mas também a divulgação dessas informações e quem é o público de interesse. “Por que esses dados não são produzidos oficialmente e por que esse mapeamento não é feito de forma acessível para os moradores dessas regiões?”, indaga ela.

Além disso, ao relatar o processo de apuração, Ferreira sinalizou a importância de atuar de forma colaborativa no jornalismo investigativo. "Entrei na apuração da reportagem um pouco depois, quando já estava em andamento, há uns três meses. E essa colaboração no jornalismo é muito importante. Eu já tinha interesse no tema, contato com o Igor e juntos analisamos quase 3 mil tiroteios”, conclui.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher.  
Criação de arte: Cassiane Lopes 
Aquarela: Nayani Real.

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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