12/09/2020

Jornalistas se autocensuram para sobreviver no ponto mais violento da fronteira brasileira

Facções criminosas entre Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, executam profissionais de imprensa que denunciam crimes

Por: Camila Araújo e Wender Starlles

Edição: Wender Starlles




Com 12 tiros o jornalista e dono do site Porã News, Léo Veras, foi assassinado em casa, no início de 2020. Ele cobria principalmente assuntos relacionados à disputa de poder pelo narcotráfico.

O crime aconteceu em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia na fronteira com Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Entre os quase 17 mil quilômetros de divisa do Brasil com outros dez países vizinhos, a fronteira com o Paraguai apresenta desafios à segurança de profissionais de imprensa. 

É o que conta Marta Ferreira, editora do Campo Grande News, na discussão sobre jornalismo na fronteira, que aconteceu no segundo dia do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. “As execuções de pessoas são constantes e representam a ponta do iceberg pela disputa do comando de tráfico na região”.

Os problemas são comuns a todas as áreas fronteiriças do Brasil, desde falta de policiamento e crimes ambientais até contrabando de cigarros, armas e drogas. Porém, um fator diferencia a divisa entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã. 

A violência, característica do local, se espalha pelo restante do estado e atinge outras cidades, como Dourados e Campo Grande. Em 2016, a disputa entre facções criminosas pelo controle de território, que resultou na morte do narcotraficante Jorge Rafaat, aumentou essa tensão.  

De acordo com Marcelo Beraba, fundador da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e mediador da discussão, os jornalistas enfrentam diversos problemas para cobrir assuntos relacionados a crimes na região devido às ameaças de morte que recebem. Por isso, muitos profissionais noticiam a fronteira à distância, de outras cidades do estado. 

“A linha da cobertura é muito tênue porque você está praticamente ao lado do inimigo. Eles sabem onde você mora, sabem da sua rotina", diz Angelita Nunes, coordenadora do Programa Tim Lopes, que acompanha casos de homicídios contra jornalistas.  Como consequência, os territórios dominados pela violência se transformam em desertos de notícias, com pautas mais técnicas. "A gente humaniza pouco as matérias, porque existem poderes que nos silenciam", avalia Marta. 

Autocensura 

Por conta do medo, o jornalismo investigativo é abandonado e se transforma num interlocutor que apenas reproduz informações dadas pelo poder público. Isso acontece, porque, de acordo com Beraba, existe a autocensura. “Perdem os leitores, que recebem notícias parciais, e se frustram os jornalistas sérios”. A prática, apesar disso, é compreendida. “Eles [repórteres] não são suicidas”, completa. 

Karine Segatto, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Grande Dourados/MS, revela que quando alguém se sente ofendido por matérias publicadas, buscam diretamente o repórter para tirar satisfação. Como as redações locais são reduzidas, geralmente há apenas um único funcionário. 

“E em cidades pequenas, todo mundo conhece sua casa, seu local de trabalho, onde você estuda”, diz. Dentro desse cenário, a sensação de insegurança aumenta. "Os jornalistas da região pensam que podiam ser eles no caixão”, conta Segatto. As consequências disso se refletem na ausência de matérias sobre a criminalidade e outros temas envolvidos na questão. 

Terra sem lei 

“Aqui na região existe uma terra sem lei que se chama fronteira com o Paraguai”, pontua Marta. Segundo ela, o poder das quadrilhas tem tentáculos que não se limitam ao local de atuação. Embora o Primeiro Comando da Capital (PCC) atue com extrema violência, esse não é o maior problema enfrentado pelas pessoas que moram nessas cidades.

“Existem facções regionais que são muito fortes. Elas têm cadeiras na assembleia legislativa, representantes em prefeituras e em tribunais de contas”, completa. 

Karine Segatto e Marta Ferreira partilham uma certeza: a sociedade precisa defender o jornalismo. “Tenho esperança. As coisas estão começando a mudar”, declara a editora.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Charge: Camila Araujo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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