11/09/2020

Há empresas de desinformação profissionais que estão sendo contratadas para espalhar informações falsas, diz Craig Silverman

Editor de mídia do Buzzfeed News explica como empresas e indivíduos lucram com informações falsas e ensina como os jornalistas podem investigar essas desinformações no ambiente virtual

Por: Isabela Alves e Rafael de Toledo
Edição: Giulia Afiune


A distribuição de desinformação na internet se tornou um negócio lucrativo para empresas e pessoas, disse o jornalista Craig Silverman, editor de mídia do Buzzfeed News na palestra “Desinformação: desafios para o jornalismo e técnicas de verificação”, que abriu o 15º Congresso da Abraji nesta sexta-feira (11).


Como empresas de desinformação profissionais estão sendo contratadas por instituições e políticos para espalhar notícias falsas no ambiente virtual, os jornalistas devem sempre desconfiar do que encontram na internet, mesmo que aquele conteúdo pareça legítimo.

“Publicações com muita popularidade, grande número de curtidas ou compartilhamentos podem ser informações manipuladas e falsificadas”, disse Silverman em conversa com o presidente da Abraji, Marcelo Träsel.


Por que a desinformação existe?

Silverman aponta que os próprios jornalistas podem ser vítimas da desinformação, porque ao repetir as informações falsas, a credibilidade do jornalista é prejudicada. Entender como esse ambiente é facilmente manipulável e ter as ferramentas necessárias para investigar são fundamentais para qualquer jornalista.

Segundo o editor, para entender este fenômeno, é importante saber a maneira como a informação é consumida.

“Nós desenvolvemos uma lealdade às nossas crenças e trabalhamos muito para encontrar evidências que apoiam essas opiniões. Nós queremos não somente acreditar, mas desacreditar o que vai contra [nossas crenças]. Isso acontece o tempo todo no ambiente digital”, diz.

O sucesso das notícias falsas pode ser justificado também por conta de imagens, vídeos e áudios falsificados, já que muitas vezes, eles são mais atrativos para o público.

Nos últimos anos, empresas começaram a lucrar com a produção de notícias e informações falsas, inclusive terceirizando esses serviços para países em desenvolvimento.

Assim como roupas e outros produtos são fabricados em países onde o custo do trabalho é muito barato e depois vendidos em países mais ricos, a mesma coisa acontece com a produção de desinformação, exemplifica Silverman. As cifras movimentadas por essa “indústria” são bilionárias e atraem pessoas que podem fabricar estes conteúdos, especialmente de comunidades mais carentes.

Facebook baniu empresa após investigação do BuzzFeed

Na palestra, Silverman mencionou uma reportagem que produziu para o Buzzfeed News – “Facebook Banned Mask Ads. They're Still Running” (O Facebook baniu anúncios de máscaras. Eles continuam sendo veiculados) – que desmascarou uma empresa, a ZestAds, que vendia máscaras contra o novo coronavírus a preços inflados usando propagandas enganosas no Facebook.

Para fazer a investigação, ele começou identificando quem eram os atores que estavam por trás dos anúncios, como eles se comportavam nas redes e como estavam replicando aquele conteúdo em outras contas conectadas.

Ele também entrou em um grupo de Facebook onde clientes estavam fazendo reclamações da empresa. O repórter foi então construindo uma base de dados com os endereços dos sites, os endereços das lojas, as páginas do Facebook e, por fim, os seus donos. Ele aponta que há ferramentas gratuitas e pagas que ajudam a fazer essa apuração, como o site http://domainbigdata.com.

Com a publicação da reportagem, o Facebook baniu a empresa da plataforma. “Eles não vão ficar fora para sempre, mas já fez a diferença. Foi um trabalho muito técnico e levou muito tempo, mas todo jornalista deve investigar e se preocupar com a desinformação”, disse.

Dicas para investigar desinformação

“Os jornalistas também podem se tornar alvo destas campanhas, o que faz com que a gente repita a informação falsa e também dá descrédito à profissão,” opina Silverman. Por isso, ele recomenda que todo jornalista investigativo desenvolva habilidades para fazer uma investigação digital.

O jornalista compilou dicas e recursos para a verificação de informações online no livro Verification Handbook, um guia para profissionais da área de comunicação que querem investigar a desinformação.

Para Silverman, além de contar histórias e verificar fatos, também é parte do trabalho do repórter ajudar o público a entender as práticas jornalísticas. "Explicar o processo que usamos é importante para criar confiança e para criar uma matéria convincente. Mas acho que também é útil para ajudar a educar as pessoas, para que as pessoas entendam em quê e em quem elas devem confiar," diz.

O editor separou algumas dicas práticas que podem auxiliar no trabalho jornalístico de investigação da desinformação. Veja!
  1. Identificar quem são as pessoas, empresas e perfis que promovem aquele conteúdo;
  2. Monitorar o comportamento e as conexões desses atores ao longo do tempo;
  3. Começar com um conteúdo e rastreá-lo: está presente em outras plataformas, com outras linguagens?;
  4. Cuidado ao checar: confirmar quem está por trás do conteúdo com evidências físicas e digitais.

Direção de Arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher.
Criação de Arte: Camila Araujo.

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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