11/09/2020

Matar o jornalista não significa matar a mensagem: projeto dá continuidade à investigações de jornalistas assassinados

Diante do contexto de constantes ataques à liberdade de imprensa e impunidade à morte de jornalistas, Laurent Richard e Angelina Nunes apresentam iniciativas colaborativas em defesa da profissão

Por: Maria Carolina Sousa e Isabella Vieira

Edição: Caroline Oliveira

A morte de um jornalista não significa a interrupção de uma história. Foi a partir desta ideia que profissionais da imprensa decidiram se mobilizar para além de notas de repúdio e fundaram projetos para investigar os crimes e dar continuidade às investigações desenvolvidas pelos jornalistas assassinados.

Segundo os Repórteres Sem Fronteiras (RSF), censura, prisão e morte de jornalistas se devem às suas pautas de investigações contra políticos corruptos ou organizações criminosas, principalmente. De acordo com a instituição, 49 jornalistas perderam suas vidas em 2019 enquanto praticavam sua profissão.

Para Laurent Richard, jornalista investigativo francês e fundador do Forbidden Stories, nesse cenário “há duas maneiras de defender a imprensa: lutando por políticas governamentais contra a impunidade dos crimes e criando projetos de jornalistas na defesa de outros jornalistas".

Laurent Richard participou do painel "Forbidden Stories e Programa Tim Lopes: Conheça iniciativas que investigam a morte de jornalistas", do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

O debate também contou a presença de Angelina Nunes, coordenadora do Programa Tim Lopes da Abraji, e mediação de Marcelo Beraba, jornalista e um dos fundadores da Abraji.

Forbidden Stories

O primeiro projeto do Forbidden Stories foi em torno do caso de Daphne Galizia, jornalista morta, em outubro de 2017, por investigar um escândalo de corrupção no governo de Malta, no mediterrâneo europeu. O projeto reuniu uma força-tarefa colaborativa de 45 jornalistas de 18 organizações de mídia que durou cinco meses para retomar e completar o trabalho iniciado por Galizia.

O projeto também coordena o Green Blood Project – em português, Projeto Sangue Verde – que reúne repórteres de mais de 20 países para continuar o trabalho de jornalistas que foram assassinados, presos ou censurados. "Cada assassinato é um crime contra a informação e a liberdade de imprensa em todo o mundo, em um mecanismo de resposta global. Se os criminosos estão unidos, nós também devemos nos unir", diz Richard.

Programa Tim Lopes

No Brasil, semelhante ao Forbidden Stories, o Programa Tim Lopes, fundado pela Abraji, acompanha, entre outros casos, a investigação sobre o assassinato do radialista Jefferson Pureza, no município de Edealina, localizado em Goiás, em janeiro de 2018. Angelina Nunes conta que o sentimento de impunidade e intimidação foram crescentes ao longo da apuração do caso.

O jornalista foi morto com três tiros no rosto, dentro de sua casa. Um ano antes, Pureza afirmou no programa “A Voz do Povo”, da Beira Rio FM, onde trabalhava, que estava sendo ameaçado e que se algo acontecesse com ele, a culpa deveria recair sobre o vereador José Eduardo Alves da Silva (PR) e o ex-prefeito João Batista Gomes Rodrigues (PTB).

Dos seis acusados de envolvimento no crime, dois foram absolvidos por júri popular. Entre eles o vereador, suspeito de ser o mandante da morte. Para Nunes, casos como esse criam "uma sensação dentro do país de que você pode calar um jornalista".

Colaboração entre diferentes veículos 

Em ambos os projetos, os jornalistas destacam que a cooperação entre diferentes veículos foi um elemento fundamental para que as investigações tivessem andamento. Como muitas vezes tratam-se de profissionais que competem entre si, o trabalho deve estar acima do ego. Nesse clima, Richard relatou que o Forbidden Stories já contribuiu com o desfecho de vários casos em aberto ou abandonados. 

Apesar da importância desses projetos, é difícil reproduzir iniciativas como essa, tanto por conta da competição entre os veículos quanto pelo perigo que cerca as investigações jornalísticas. Por isso, são sempre conduzidas de forma segura, protegendo as informações e os jornalistas envolvidos.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher. 

Criação de arte: Isabella Vieira

Aquarela: Nayani Real.

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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