11/09/2020

Qual é o papel do jornalista no combate à covid-19?

Entre a “infodemia” e a pandemia do novo coronavírus, está o desafio de produzir e fazer circular informações confiáveis

Por: Caroline Oliveira

Edição: Caroline Oliveira


A população mundial carrega o peso de duas pandemias ao mesmo tempo. Em um obro, está a covid-19, que já matou cerca de 905 mil e contaminou 28 milhões de pessoas. No outro, a “infodemia”, definida assim pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para caracterizar a enxurrada de informações falsas como uma ameaça à saúde.

Entre as duas pandemias, estão os profissionais da imprensa, principalmente do jornalismo científico, que têm o desafio e a responsabilidade de produzir e fazer circular informações confiáveis.

Uma dessas profissionais é Roberta Jansen, repórter do O Estado de S. Paulo especializada em ciência, saúde e meio ambiente, cuja dificuldade “está sendo filtrar as informações verdadeiras da pandemia da desinformação. Tem muita informação e pesquisa sobre a doença circulando, mas também muita notícia falsa”.
Ao lado de Miguel Nicolelis, neurocientista e coordenador voluntário do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste, e Vinicius Ferreira, assessor de imprensa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jansen participou da palestra “Desafios do jornalismo científico durante a covid-19”, promovida pelo 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

“Negacionismo científico”

Segundo Nicolelis, a gravidade da infodemia, atrelada à pandemia de covid-19, torna-se ainda mais alarmante haja vista o “negacionismo científico e da realidade”, ventilado por autoridades oficiais do Estado e que serve como combustível para a circulação de notícias falsas.

Exemplo: no dia 10 de março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que o novo coronavírus é “muito mais fantasia”, sem ser “isso tudo que a grande mídia propaga pelo mundo”. No dia 17 do mesmo mês, o capitão reformado voltou a negar a magnitude da doença ao classificar a pandemia como uma “histeria”. Três dias depois, disse que não seria uma “gripezinha” que iria derrubá-lo.

A realidade é “tão difícil” que os veículos de comunicação G1, O Globo, Extra, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e UOL fecharam uma parceria para publicar os números da pandemia, “porque chegou um momento em que não se tinha nem confiança nos dados do Ministério da Saúde”, afirma Nicolelis.

Em junho de 2020, a pasta retirou do painel oficial de monitoramento epidemiológico da covid-19 o número acumulado de mortes e casos confirmados da doença, exibindo somente o registro das últimas 24 horas. Após a repercussão negativa, o governo federal recuou. Na época, Nicolelis, ao UOL, classificou a medida como “uma afronta a todo o povo brasileiro, pois lhe nega o direito de saber, em detalhes, em que estágio a pandemia está”.

Também entraram na dança nebulosa da infodemia, medicamentos como cloroquina e ivermectina, utilizados no tratamento de malária e doenças autoimunes e vermífugo, respectivamente, além do movimento antivacina mesmo antes de existir uma contra a covid-19.

Mas se engana quem acha que esta é uma característica do Brasil. Um artigo publicado pela revista científica Lancet mostra que 26% dos franceses não tomariam a vacina caso já existisse. No Reino Unido, uma pesquisada promovida pela Universidade de Cambridge leva para o mesmo caminho: 12% da população não se vacinariam e 18% tentariam influenciar outras pessoas a não tomarem também. Por fim, nos Estados Unidos, 25% também não têm interesse em se vacinar, segundo um estudo da Agência Reuters.

Nesse cenário, não há dúvida de que “é necessário o trabalho de um bom jornalista faz: duvidar de tudo e só acreditar em fatos comprovados pela comunidade científica”, afirma Nicolelis. Para ele, esse comprometimento jornalístico é “vital” para a diminuição da taxa de contaminação e do número de óbitos. Segundo o neurocientista, no Brasil, “as fake news são mortais, haja vista o número de pessoas que protestaram nas ruas contra o isolamento”.

A informação de qualidade tem um caminho

Roseli Fígaro, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o jornalismo parte de condições concretas da realidade. O escritor Frei Betto tem uma frase que ajuda a entender o que Fígaro quer dizer: “A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”. Da mesma maneira, o trabalho jornalístico também sofre influência do meio onde surge, ou seja, dos termos econômicos, políticos e culturais que se impõem.

“Nós estamos no meio de outros fatores: dos interesses econômicos, da crise do modelo de empresa jornalística, da precarização profunda do trabalho do profissional. Nesse caldo, tem-se ainda a vida comum do cidadão permeada por diversas fontes de informação e notícias falsas”, explica Fígaro.

A informação de qualidade, portanto, tem um caminho “dramático” a ser percorrido até chegar no leitor, que com a pandemia, torna-se mais extenuante. Fígaro lembra que, em fevereiro deste ano, houve uma recomendação do Ministério da Saúde para a não utilização de máscara de proteção entre aqueles que não apresentavam os sintomas da doença. “Isso foi uma fala repetida pela pasta”, relembra. Pouco tempo depois, o uso se tornou obrigatório.

O que os jornalistas devem fazer?

Jansen explica que na esfera do jornalismo científico existem parâmetros para se chegar a uma informação verdadeira. Um deles é buscar os dados em revistas científicas e instituições já conhecidas por confiabilidade, como The Lancet, Science, Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas e Harvard. “De antemão, a gente sabe que, se aquele estudo está publicado naquela revista, quer dizer que foi revisto, é sério.” Uma outra dica da jornalista é entrar em contato com fontes confiáveis que atuam como pesquisadores para confirmar as informações.

Vale lembrar que a pandemia de covid-19 é uma doença nova, portanto, dos cientistas mais renomados aos estagiários do jornalismo, todos estão aprendendo. “O jeito é acompanhar, ler, seguir esses critérios falar com alguém de confiança, procurar da onde é o estudo, quem fez. Isso são coisas básicas”, afirma Jansen.

Vinicius Ferreira, assessor da Fiocruz, reitera a imprescindibilidade das notícias de qualidade e também traz dicas. Ele explica que não se pode confundir um artigo publicado com um “pré-print”, que é um artigo ainda em fase de publicação e que pode, portanto, passar por alterações. “Leia e releia, consulte o pesquisador e a instituição envolvidos e, acima de tudo, procure uma segunda ou até terceira visão sobre o assunto para realmente se aprofundar no tema”, afirma Ferreira.

Paralelamente a esse processo de construção da notícia, deve haver constantemente os seguintes questionamentos: Essa matéria tem informações de qualidade? Já pode ser publicada? A preocupação central é ganhar cliques ou levar informação de qualidade para a sociedade?

Manuais de combate à infodemia

Diante da “infodemia”, a Unesco lançou o Manual da Unesco sobre Fake News, com perguntas que devem ser feitas pela população ao lidar com algum conteúdo aparentemente não confiável. De acordo com a organização, o manual tem como objetivo ajudar a “interromper os danos causados” pela epidemia de informação.

No Brasil, a Fiocruz tem algo parecido, uma seção em seu site somente sobre o novo coronavírus, com materiais para download. Da mesma maneira, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) lançou o Manual de Enfrentamento de Fake News em Tempos de Covid-19, em maio deste ano.

Por último, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, em parceria com a plataforma de divulgação científica Pretty Much Science, também lançou a publicação Coronavírus – Manual das Fake News

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Isabella Vieira
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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