12/09/2020

Redações reproduzem o racismo e não se mobilizam por mudança, dizem jornalistas negras

"A imprensa, por ser um reflexo da sociedade, é racista e excludente", de acordo com Flavia Lima, ombudsman da Folha de S. Paulo

Por: Carlane Borges e Weslley Galzo
Edição: Vitória Macedo


“Quando participei desse congresso em 2018, vi cinco jornalistas negros. Dois estavam em um painel sobre raça. Isso é problemático em um país com uma população negra tão grande como a do Brasil. A Abraji e a imprensa precisam se responsabilizar sobre isso”, disse Nikole Hannah-Jones, repórter da revista do The New York Times (NYT) e vencedora do Prêmio Pulitzer de Comentário pelo Projeto 1619, na sua fala de abertura da mesa “Racismo dentro e fora das redações”.

No painel – mediado pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Flavia Lima, e com participação da ex-repórter da revista Piauí, Yasmin Santos – as experiências do processo de escravidão nos Estados Unidos e no Brasil foram discutidas a partir do trabalho das jornalistas. 
 
O Projeto 1619, criado por Nikole, reconta a história dos negros norte-americanos desde a chegada do primeiro escravizado angolano nos portos da Virgínia até os dias de hoje.

"A imprensa, por ser um reflexo da sociedade, é racista e excludente", destacou Flavia. A ombudsman aponta que só recentemente as crises sociais brasileiras passaram a ser associadas ao racismo na imprensa. A cobertura jornalística teve outro tom quando a imprensa olhou a morte de George Floyd, mundialmente noticiada, pelo ângulo racial. “O episódio fez mais pelo jornalismo brasileiro do que o próprio jornalismo se propôs a fazer por anos”.

Nikole Hannah-Jones, por outro lado, revela que as redações nos EUA por si só não estão fazendo muitas mudanças estruturais, mas que houve mudanças na cobertura. “Alguns cargos foram criados e eu tenho uma posição ambivalente, pois são esses cargos, de diversidade, de inclusão, que quase sempre vão para uma mulher negra que não tem muito poder de fato,” salienta.

Flavia ressaltou, em sua fala, a importância de haver redações racialmente diversas e citou seu artigo para a revista Piauí, em que repercute os dados de uma pesquisa produzida pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A pesquisa aponta que jornalistas negros ocupam apenas 13,5% dos postos formais de trabalho no estado de São Paulo. Na sociedade brasileira, pretos e pardos são 56,4%.  

A situação das redações do Brasil e dos Estados Unidos são semelhantes quanto à representação de negros, mas aqui a situação é muito pior. “Nós [afro-americanos] somos 13% da população. A gente poderia esperar que 13% das redações fossem ocupadas por negros, mas são, em média, 5%”, diz Nikole.

Diante da exclusão, Yasmin cita relatos do seu trabalho de maior notoriedade, Letra Preta, que reuniu depoimentos de 47 jornalistas negros em 4 regiões do país, dos quais 63% afirmam ter passado por algum tipo sofrimento psicológico nas redações. “É um ambiente permeado pelo racismo. Quando há jornalistas negros eles não estão em cargos de poder”, diz a jornalista sobre a estrutura racista das redações.

Militância e jornalismo

O trabalho desenvolvido por Nikole no NYT foi alvo de ataques do presidente Donald Trump, além de ser criticado por historiadores sob a acusação de suposto revisionismo histórico em favor dos negros. Ela replica: “Toda história é uma revisão. Se toda a história tivesse sido escrita a gente só ia regurgitar o que foi escrito antes”.

A norte-americana afirma que os jornalistas negros lidam constantemente com o descrédito ao escrever sobre questões raciais. “A capacidade de ser neutro é um privilégio branco. Eu não posso ser neutra em um país que nega a cidadania aos negros. O jornalismo que eu faço não é abstrato. É um jornalismo de vida ou morte para muitos americanos”, defende.

Para Yasmin, rotular um jornalista como militante é visto como ofensa no Brasil, mas ela não se importa em ser enquadrada como tal. “Na minha formação, aprendi que imparcialidade não existe. Você vai procurar o seu objetivo e o equilíbrio de informações”, afirma. Ela ainda defende que a tentativa de associar um jornalista ao papel de militante é uma estratégia para menosprezar as questões raciais.

Ao falar sobre o papel das redes sociais no debate sobre raça, a nova geração não inaugura a ideia de que com racismo não existe democracia. Pelo contrário: o movimento negro já dizia isso nos anos. Agora, jovens têm um “facilitador” importante na luta, que é a pressão exercida pelas redes sociais.

“Quando a própria piauí publicou, em 2018, uma foto da sua equipe reunida, alguns seguidores vieram cobrar: 'onde estão os profissionais negros?' Na internet conseguimos brigar por uma melhor representação”, diz Yasmin.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher 
Criação de arte e infográfico: Vitória Macedo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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