03/07/2019

Perfil: Felype Adms Oliveira (Rede Record/ Pará)


Quem é esse cara que gastou, economizou, se endividou e viajou mais de 2.800 km para estar em um lugar que para muitos é banal?

Por Vitória Macedo
Edição Cristiane Paião e Gabriela Moreira
Felype Adms Oliveira fez uma viagem de mais de 20h até o Congresso. Foto: André Catto

Como todo bom jornalista Felype Adms Oliveira, que trabalha na TV Vitoria, uma afiliada da Rede Record de Vitoria do Xingu, em Altamira no Pará, gosta de contar histórias. A sua vinda da área mais verde do país é inspiradora diante de olhares que estão sempre voltados para as selvas de pedras das grandes capitais do eixo sul-sudeste. Frente a frente, sentados em uma mesa no vão principal do Congresso Internacional de Jornalismo da Abraji, a conversa fluiu com os estudantes da redação-laboratório do Repórter do Futuro em meio aos aviões que iam e vinham a todo instante sobre os céus da Anhembi Morumbi...
Tem gente que olha para um sapo e se interessa pela biologia. Outros olham para a embarcação e se interessam pela engenharia naval. Felype Adms escutou o noticiário radiofônico estatal A Voz do Brasil e se interessou pelo jornalismo. Criado pela avó, conta que ela pode ter sido o seu grande baluarte, pois ouvia a rádio todos os dias para se informar em meio à Amazônia.   

Durante a conversa, ele se debruça sobre o seu passado: estende as mãos sobre a mesa para mostrar os dedos cheios de pequenas cicatrizes. A mão esquerda mais cortada do que a direita revela o "ralar" da macaxeira, também conhecida como mandioca ou aipim nas mais diversas regiões do país. Aponta para o totem que se encontra atrás de onde estamos sentados e destaca que a pilha de farinha que produzia era daquele tamanho, de cerca de um metro e meio, de dois metros.

Por ser destro, ralava muito com a mão direita que adormecia até não ser mais sentida. Seguia o trabalho pelo instinto e não pelo tato. Enquanto essa mão descansava na água morna, ralava com e mão esquerda. Talvez umas das principais características para ter virado um bom jornalista tenha surgido ali. Seu instinto, paciência e  experiência livraram sua mão direita de mais cortes e fazem seu jornalismo ser importante para sua comunidade.

Os olhos brilhando, Felype se fascina com a comunicação. No interior do município onde vive conta que ao andar de barco pelo rio, encontra muitas pedras gravadas por indígenas com recados sobre ponto de pesca, ou onde encontraram o amor. Passados tantos anos, essa identificação visual com a qual os povos se comunicavam ainda está lá. Assim como II Guarany, a vinheta de abertura de A Voz do Brasil ainda está na memória de Adms. O que levaria um jovem do interior do interior do Norte do país e escolher o jornalismo como profissão? 

Curiosidade 
Que bola de cristal as pessoas tinham para entender tudo aquilo que acontecia no Brasil? Além de entender o modo como era feito, Adms queria saber sobre política e comércio na tentativa de compreender o contexto local.

Diz que fugiu da realidade do seu interior, mas na verdade, pode-se dizer que isso o ajudou a analisá-lo melhor. Olhou para questões nacionais, como a agropecuária, com o interesse local de quem vende farinha de mandioca. Está aí magnificência do jornalismo, segundo Adms, permitir e compreensão de contextos. Expressivamente dizia que, mais do que isso, era importante explicá-los as comunidades ao redor. 

Em sua cidade, tira a capa de muitos que se dizem heróis, fala para descerem e calçarem o "sapato da humildade". Se esses sapatos realmente existem, são coloridos iguais aos que Felype calçava e caminhava. Uma humildade que só quem é grande consegue transmitir.

Começou a cursar jornalismo, mas na época o STF derrubou a obrigatoriedade de diploma para o exercício da profissão. Há doze anos na área, só depois de dez anos conseguiu tirar o Documento de Registro Técnico, o chamado DRT, porém conseguiu publicar matérias nacionais. Hoje é “jornalista precário”, como ele diz, aquele que não cursou, mas tem a prática.  Traz consigo o que sempre o motivou: a curiosidade. Busca por boas fontes e comparações de narrativas.

A comodidade não existe em seu trabalho de busca constante. É dinâmico demais, é inquieto, assim como suas mãos. Viaja para Belém, Fortaleza e Belém atrás de conhecimento daquilo que o move.
 
“Nada contra as outras profissões, mas eu gosto é do jornalismo”. A palavra ‘gosto’ foi dita de maneira enfática, junto com suas mãos que a todo momento gesticulavam. Felype Adms queria ser jornalista, independentemente do campo ou das condições financeiras. “Eu acho que é paixão mesmo, se e gente partir do princípio de que paixão é algo que a gente não explica”, enfatiza.  

O tempo da Amazônia: distâncias calculadas pelos rios 
Talvez as palavras não possam expressar com eficácia o tamanho do sentimento, mas o olhar de Adms sim. Por mais clichê que isso possa soar, a paixão o move a quilômetros e quilômetros da cidade onde vive, no interior do Pará, até Congressos em outras capitais, como o Congresso da Abraji.

Para chegar ali utilizou todos os meios de transportes possíveis. Passou pelo rio, pela terra e pelas nuvens, totalizando 20h de viagem. Fora o investimento. De empréstimos com bancos e amigos à vendas de objetos pessoais como celulares, bicicletas, vídeo games, cortinas e até sofás. O mesmo esforço faz para participar de outros Congressos. 

O tempo que leva para respirar e se preparar para novas despesas é de dois anos. Como economia, ao invés de comprar duas mudas de roupa para a filha, diz que compra só uma. Mas o mais importante é que vale muito a pena. “É paixão mesmo”, enfatiza o jornalista.

Em relação aos riscos da profissão que escolheu, tem clareza da distinção entre o jornalismo que faz e o das grandes capitais. 

A primeira diferença que destaca é a dificuldade de deslocamento para fazer cobertura. Imagine a distância entre Rio de Janeiro e São Paulo, uns 500km. Agora imagine fazer esse trajeto duas vezes, matemática básica, 1.000km. Distância que Felype percorre  só para chegar na capital de seu estado. Essa é a realidade que em vive, sem falar das condições das estradas - de terra batida, na maior parte das vezes, ou mais cheias de buracos que de asfalto. 

As dimensões continentais do Pará fazem seu trabalho ser de muita perseverança para a apuração. Tudo é muito longe e caro. Adms conta que para ir de Altamira para Belém paga R$1.800,00 de avião. É imensurável o custo para ser jornalista na região. Ou ganha dinheiro, muito dinheiro; ou faz mágica com o dinheiro; ou tem ajuda de terceiros. 

Fazer jornalismo sozinho? O dedo indicador move rapidamente de um lado para o outro para reforçar que é impossível.

Além disso, ser jornalista na Amazônia é ser, em algum momento, ameaçado. Quem se destaca tem medo, e medo Felype não tem, caso contrário não estaria ali. Como disse humoradamente no painel em que participou na Abraji "ou a gente é jornalista ou é c@#@*, não dá para ser as duas coisas”, com o perdão da expressão. 

Segundo ele, não se pode ter medo dos “bam bam bans”, nem do prefeito que o ameaçou... Suas mãos batem na mesa para salientar que o seu tesão pelo jornalismo está em confrontar a verdade com a verdade.  As respostas que busca não são para si, mas para o público. Acredita que esse é o papel do jornalismo investigativo.

A mãe de Adms? Fica entre e cruz e a espada. Apesar da felicidade em saber que o filho tirou foto com a Miriam Leitão, se preocupa com o que ele escreve e fala. Além da coragem, a diplomacia, segundo ele, também é muito usada como estratégia. Procura o familiar da pessoa que o ameaça e explica seu trabalho, que é puramente o jornalismo, e que rende-se ao dizer: “ei, psiu, fulano, não tenho nada contra você”. 

A esposa? Suplica de joelhos para largar o jornalismo, até lhe oferece opção para trabalhar no campo, mas Adms, com sorriso de lado e totalmente submetido ao fascínio da profissão, dá de ombros: “pois é, eu gosto de jornalismo”.

Durante a conversa, Felype sempre dava uma pausava entre um raciocínio e outro, buscando a plena compreensão do que dizia. Em um certo momento, com a mão no queixo, quase exala um suspiro de quem falou algo empolgante e espantoso ao mesmo tempo. Pensando em todo seu retrospecto, o paraense chega à constatação de que a única coisa capaz de unir todos os povos  é a comunicação, que assim como o sorriso, é universal. A partir dela, foi possível contar sua história e nos emocionar ao enxergar no reflexo dos seus olhos a paixão pela profissão que também escolhemos seguir.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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