12/09/2020

A mesma liberdade de expressão que garante a democracia pode derrubá-la, diz Jason Stanley

Professor de filosofia em Yale, o filósofo e autor do livro "Como Funciona o Fascismo" traça panorama sobre ações de governos autoritários  

Por: Patrick Freitas e Artur Ferreira

Edição: Rafaela Carvalho


O fascismo prospera no medo. É do receio coletivo que nasce a ânsia por um líder que assuma um papel de protagonismo patriótico, digno dos livros de História – mais precisamente, dos capítulos que mostram governantes totalitários e extremistas. Para Jason Stanley, professor de Filosofia e autor do livro Como Funciona o Fascismo, vivemos um desses momentos. Estamos em uma era neofascista.

Para o filósofo, líderes fascistas enxergam crises não como problemas a serem resolvidos em prol de uma nação, mas como algo que os prejudica ou não. Um exemplo recente no Brasil é o próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro, que, por vezes, chamou o novo coronavírus de uma “gripezinha” ou "resfriadinho", por exemplo.

Stanley participou do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo neste sábado (12). Ele e Daniel Bramatti, jornalista e editor do Estadão Dados, conversaram sobre as principais formas como o Neofascismo se manifesta em governos autoritários de extrema direita pelo mundo. 

Jornalismo tem poder para questionar as narrativas históricas que sustentam desigualdades, defende a ganhadora do Pulitzer Nikole Hannah-Jones

Em entrevista exclusiva, a repórter do New York Times fala sobre o sucesso do projeto 1619, que recontou a História dos Estados Unidos pelo ponto de vista da experiência dos negros americanos; 'O Brasil precisa de um projeto como esse'

Por: Giulia Afiune


E se a História do Brasil fosse recontada pelo ponto de vista das pessoas escravizadas? Foi um esforço parecido que rendeu um Prêmio Pulitzer em 2020 para a jornalista Nikole Hannah-Jones, que cobre direitos civis e injustiças raciais para a revista do New York Times.

O "1619" é um ambicioso projeto jornalístico que propõe outro ponto de vista para a História dos Estados Unidos, centrado nas contribuições que os negros americanos deram para a construção do país. 

Os ensaios que compõem o especial mostram como diversos fenômenos contemporâneos da vida nos Estados Unidos – desde a música popular, passando pelo alto índice de consumo de açúcar, até, claro, a violência policial – são desdobramentos da escravidão que perdurou por séculos e gerou um país extremamente desigual. 

A partir desse mergulho profundo na História americana, Nikole argumenta que o princípio de liberdade que estava presente na fundação dos Estados Unidos era falso, e que foi a luta dos negros para abolir a escravidão e conquistar seus direitos que trouxe esse ideal para mais perto da realidade. Por isso, a data de nascimento da nação não deveria ser 1776, quando a célebre declaração de independência americana foi assinada, e sim, 1619, quando os primeiros negros escravizados desembarcaram na costa da Virgínia.

Jornalismo de periferia: a pauta como território

Gênero atua como uma poderosa ferramenta de desconstrução do senso comum

Por: Dario Vasconcelos e Maria Carolina Sousa
Edição: Samara Najjar


Miguel Otávio era morador da periferia de Recife quando lhe tomaram a oportunidade de encontrar o seu lugar no mundo. Vítima da negligência e abandono da ex-patroa de sua mãe, perdeu a vida aos cinco anos ao cair do 9º andar de um condomínio de luxo no centro da capital pernambucana em junho deste ano. 
 
As primeiras reportagens sobre o caso anunciavam seu nome e de sua mãe, mas escondiam o da empregadora, o que causou uma discussão intensa nas redes sociais sobre consciência e letramento racial.

Questionando-se sobre qual é o valor-notícia das pautas da periferia, os jornalistas Lenne Ferreira, do coletivo pernambucano Afoitas, e Ronaldo Matos, cofundador do Desenrola e Não Me Enrola, discutiram o tema “Newsmaking do jornalismo periférico: juventude e articulação no território” neste sábado (12) no 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A mediação da mesa ficou a cargo de Aline Rodrigues, cofundadora do Periferia em Movimento.

Redações reproduzem o racismo e não se mobilizam por mudança, dizem jornalistas negras

"A imprensa, por ser um reflexo da sociedade, é racista e excludente", de acordo com Flavia Lima, ombudsman da Folha de S. Paulo

Por: Carlane Borges e Weslley Galzo
Edição: Vitória Macedo


“Quando participei desse congresso em 2018, vi cinco jornalistas negros. Dois estavam em um painel sobre raça. Isso é problemático em um país com uma população negra tão grande como a do Brasil. A Abraji e a imprensa precisam se responsabilizar sobre isso”, disse Nikole Hannah-Jones, repórter da revista do The New York Times (NYT) e vencedora do Prêmio Pulitzer de Comentário pelo Projeto 1619, na sua fala de abertura da mesa “Racismo dentro e fora das redações”.

No painel – mediado pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Flavia Lima, e com participação da ex-repórter da revista Piauí, Yasmin Santos – as experiências do processo de escravidão nos Estados Unidos e no Brasil foram discutidas a partir do trabalho das jornalistas. 
 
O Projeto 1619, criado por Nikole, reconta a história dos negros norte-americanos desde a chegada do primeiro escravizado angolano nos portos da Virgínia até os dias de hoje.

Educação midiática é o melhor remédio contra a desinformação

 Estratégia consiste em desenvolver senso crítico e ensinar sobre funcionamento das mídias, com potenciais impactos positivos para o jornalismo e para a democracia 

Por: Gustavo Honório e João Benz
Edição: André Martins


Caixão cheio de pedra para inflacionar os números da pandemia. Cocaína como prevenção à Covid-19. Vacina como causa autismo. Mamadeira de "piroca" e kit gay. Certamente, você já se deparou com alguns desses “fatos” de caráter duvidoso. Eles se disseminam mais rápido do que são combatidos – e a sociedade sofre com o estrago. No segundo dia do 15º Congresso da Abraji, foi discutida uma resposta eficiente para esse problema: a educação midiática.

“Trata-se de uma habilidade necessária para os dias atuais. A educação midiática habilita pessoas a acessar e interpretar criticamente toda a informação que recebem”, explica Patricia Blanco, presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta. Natália Leal, diretora de conteúdo da Agência Lupa, também presente na mesa, complementa: “Saber diferenciar uma informação verdadeira de uma falsa é uma discussão que precisa ecoar para toda a sociedade”. Ela, que também é professora do LupaEducação, braço de educação midiática da agência, reforça que esse debate não pode ficar preso no meio jornalístico. 

O que acontece do outro lado do balcão depois de submetermos um pedido via LAI?

Especialistas esclarecem questões mal compreendidas por quem usa a ferramenta e explicam os procedimentos dos operadores com o fluxo de pedidos e recursos através da plataforma e-SIC

Por: João Vitor Reis e Amanda Oliveira

Edição: Pamela Chagas


O que acontece depois que um jornalista faz uma solicitação à qual ele tem direito por meio da Lei de Acesso à Informação
 
Márcio Cunha Filho, auditor da Controladoria-Geral da União (CGU), e Thomaz Barbosa, superintendente de Integridade e Controle Social na Controladoria Geral do Estado de Minas Gerais, buscaram responder essa pergunta na 15ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo neste sábado (12), em uma conversa mediada por Maria Vitória Ramos, jornalista e diretora da agência de dados independente Fiquem Sabendo, especializada na Lei de Acesso à Informação. 

O caminho é simples: na internet, pedidos são feitos por meio da plataforma e-SIC, disponível para qualquer pessoa. Para agilizar o processo, porém, é importante evitar erros básicos. 

Como faço para usar a Lei de Acesso à Informação?

“A LAI nos livrou de depender da assessoria de imprensa”, afirma Luiz Fernando Toledo, da CNN Brasil

Por: Carina Gonçalves e Douglas Figueiredo

Edição: Raquel Brandão


A Lei de Acesso à Informação (LAI) é uma ferramenta poderosa e pode ser aliada da produção jornalística. Ela obriga órgãos públicos a responderem a pedidos de informação, determina regras a serem respeitadas para o acesso aos dados, e gera uma grande e diversa fonte de dados para apuração e construção de reportagens. No entanto, embora exista conteúdo robusto sobre esse instrumento, nem todos sabem como usá-lo.

A Constituição de 1988, no item 33 do Artigo 5 -- que garante a liberdade de expressão --, já previa a transparência de informações e a igualdade de todos. Mas foi somente em 2011 que a LAI recebeu uma regulamentação: a Lei nº 12.527, que a concedeu o nome atual e normas específicas.

“Por ter demorado tanto, nós conseguimos bons exemplos e boas práticas para fazer uma lei bastante boa – pelo menos no papel. Ela atinge todas as esferas de poder”, afirma a jornalista Marina Atoji, gerente de projetos na ONG Transparência Brasil e especialista em Lei de Acesso à Informação.

Marina e Luiz Fernando Toledo, jornalista de dados na CNN Brasil, conversaram sobre os benefícios do uso da LAI e explicaram as formas de fazer isso no painel “Nunca Usei a Lei de Acesso à Informação. Como Faço?”.

Da escolha da pauta à publicação: como são feitos os podcasts de política?

Os jornalistas Renata Lo Prete e Conrado Corsalette falam sobre o processo de produção dos podcasts 'O Assunto' e 'Durma com essa'

Por: Miréia Figueiredo e Ruam Oliveira

Edição: Pâmela Chagas



Roteirização, gravação e edição. O processo aparentemente simples de produção de um podcast, na verdade, guarda uma série de particularidades em relação a outros produtos jornalísticos. Na mesa “Saiba como são produzidos os podcasts que falam da política nacional”, realizada neste sábado (12) durante o 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a jornalista da TV Globo, Renata Lo Prete, e Conrado Corsalette, do jornal Nexo, compartilharam suas experiências na descoberta de contar histórias por meio do áudio.

No caso do podcast O Assunto, produzido para o site G1, Lo Prete conta que a mobilização para definir a pauta começa cedo, por volta das 10h da manhã. A equipe, composta por seis pessoas, discute via Whatsapp possíveis temas a serem abordados no episódio do próximo dia.

Cobertura do coronavírus no Brasil exige equilíbrio físico e mental dos jornalistas

Com o avanço da pandemia, a imprensa se tornou uma fonte segura de informação e prestação de serviço

Por: Aelson Linardi e Carlane Borges

Edição: Vitória Macedo

A Covid-19 apresentou ao jornalismo desafios que não faziam parte da rotina. Uma das atividades essenciais da profissão, ir à rua, se tornou um problema para as redações, pelo risco de exposição ao vírus. A coragem para seguir trabalhando foi relatada na mesa “Diários da tragédia: repórteres e a cobertura de Covid-19”, durante o Congresso da Abraji, no sábado (12). 

Para Maiá Menezes, do jornal O Globo, Pedro Borges, da agência Alma Preta, e Edmar Barros, fotógrafo freelancer de agências de notícias nacionais e internacionais, os contratempos também falam alto: tomar todos os cuidados necessários é só o começo. 

Depois disso ainda há desgaste mental e as dificuldades de acesso a dados importantes para a apuração jornalística.

Jornalistas se autocensuram para sobreviver no ponto mais violento da fronteira brasileira

Facções criminosas entre Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, executam profissionais de imprensa que denunciam crimes

Por: Camila Araújo e Wender Starlles

Edição: Wender Starlles




Com 12 tiros o jornalista e dono do site Porã News, Léo Veras, foi assassinado em casa, no início de 2020. Ele cobria principalmente assuntos relacionados à disputa de poder pelo narcotráfico.

O crime aconteceu em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia na fronteira com Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Entre os quase 17 mil quilômetros de divisa do Brasil com outros dez países vizinhos, a fronteira com o Paraguai apresenta desafios à segurança de profissionais de imprensa. 

É o que conta Marta Ferreira, editora do Campo Grande News, na discussão sobre jornalismo na fronteira, que aconteceu no segundo dia do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. “As execuções de pessoas são constantes e representam a ponta do iceberg pela disputa do comando de tráfico na região”.