Quem é esse cara que
gastou, economizou, se endividou e viajou mais de 2.800 km para estar em um
lugar que para muitos é banal?
Por Vitória Macedo
Edição Cristiane Paião e Gabriela Moreira
| Felype Adms Oliveira fez uma viagem de mais de 20h até o Congresso. Foto: André Catto |
Como todo bom jornalista Felype Adms Oliveira, que trabalha na TV Vitoria, uma afiliada da Rede Record de Vitoria do Xingu, em Altamira no Pará, gosta de contar
histórias. A sua vinda da área mais verde do país é inspiradora diante de
olhares que estão sempre voltados para as selvas de pedras das grandes capitais do eixo sul-sudeste. Frente a frente,
sentados em uma mesa no vão principal do Congresso Internacional de Jornalismo da Abraji, a conversa fluiu com os estudantes da redação-laboratório do Repórter do Futuro em meio aos
aviões que iam e vinham a todo instante sobre os céus da Anhembi Morumbi...
Durante a conversa, ele se debruça sobre o
seu passado: estende as mãos sobre a mesa para mostrar
os dedos cheios de pequenas cicatrizes. A mão esquerda mais cortada do que a
direita revela o "ralar" da macaxeira, também conhecida como mandioca ou aipim nas mais diversas regiões do país. Aponta para o totem que se encontra atrás de
onde estamos sentados e destaca que a pilha de farinha que produzia era daquele
tamanho, de cerca de um metro e meio, de dois metros.
Por ser destro,
ralava muito com a mão direita que adormecia até não ser mais sentida. Seguia o
trabalho pelo instinto e não pelo tato. Enquanto essa mão descansava na água
morna, ralava com e mão esquerda. Talvez umas das principais características
para ter virado um bom jornalista tenha surgido ali. Seu instinto, paciência
e experiência livraram sua mão direita
de mais cortes e fazem seu jornalismo ser importante para sua comunidade.
Os olhos brilhando,
Felype se fascina com a comunicação. No interior do município onde vive conta
que ao andar de barco pelo rio, encontra muitas pedras gravadas por indígenas
com recados sobre ponto de pesca, ou onde encontraram o amor. Passados tantos
anos, essa identificação visual com a qual os povos se comunicavam ainda está
lá. Assim como II Guarany, a vinheta de
abertura de A Voz do Brasil ainda está na memória de Adms. O que levaria um
jovem do interior do interior do Norte do país e escolher o jornalismo como
profissão?
Curiosidade
Que bola de cristal as pessoas tinham para entender
tudo aquilo que acontecia no Brasil? Além de entender o modo como era feito,
Adms queria saber sobre política e comércio na tentativa de compreender o
contexto local.
Diz que fugiu da
realidade do seu interior, mas na verdade, pode-se dizer que isso o ajudou a analisá-lo melhor. Olhou para questões nacionais, como a agropecuária, com o
interesse local de quem vende farinha de mandioca. Está aí magnificência do
jornalismo, segundo Adms, permitir e compreensão de contextos. Expressivamente
dizia que, mais do que isso, era importante explicá-los as comunidades ao
redor.
Em sua cidade, tira a capa de muitos
que se dizem heróis, fala para descerem e calçarem o "sapato da humildade". Se
esses sapatos realmente existem, são coloridos iguais aos que Felype calçava e
caminhava. Uma humildade que só quem é grande consegue transmitir.
Começou a cursar
jornalismo, mas na época o STF derrubou a obrigatoriedade de diploma para o
exercício da profissão. Há doze anos na área, só depois de dez anos conseguiu
tirar o Documento de Registro Técnico, o chamado DRT, porém conseguiu publicar matérias nacionais. Hoje é “jornalista precário”, como ele diz, aquele que não cursou, mas tem
a prática. Traz consigo o que sempre o
motivou: a curiosidade. Busca por boas fontes e comparações de narrativas.
A comodidade não
existe em seu trabalho de busca constante. É dinâmico demais, é inquieto, assim
como suas mãos. Viaja para Belém, Fortaleza e Belém atrás de conhecimento
daquilo que o move.
“Nada contra as
outras profissões, mas eu gosto é do jornalismo”. A palavra ‘gosto’ foi dita de
maneira enfática, junto com suas mãos que a todo momento gesticulavam. Felype
Adms queria ser jornalista, independentemente do campo ou das condições financeiras. “Eu acho que
é paixão mesmo, se e gente partir do princípio de que paixão é algo que a gente
não explica”, enfatiza.
Talvez as palavras
não possam expressar com eficácia o tamanho do sentimento, mas o olhar de Adms
sim. Por mais clichê que isso possa soar, a paixão o move a quilômetros e
quilômetros da cidade onde vive, no interior do Pará, até Congressos em outras
capitais, como o Congresso da Abraji.
Para chegar ali
utilizou todos os meios de transportes possíveis. Passou pelo rio, pela terra e
pelas nuvens, totalizando 20h de viagem. Fora o investimento. De empréstimos
com bancos e amigos à vendas de objetos
pessoais como celulares, bicicletas, vídeo games, cortinas e até sofás. O mesmo esforço faz para
participar de outros Congressos.
O tempo que leva para respirar e se preparar
para novas despesas é de dois anos. Como economia, ao invés de comprar duas
mudas de roupa para a filha, diz que compra só uma. Mas o mais importante é que
vale muito a pena. “É paixão mesmo”, enfatiza o jornalista.
Em relação aos
riscos da profissão que escolheu, tem clareza da distinção entre o jornalismo que
faz e o das grandes capitais.
A primeira diferença que destaca é a dificuldade
de deslocamento para fazer cobertura. Imagine a distância entre Rio de Janeiro
e São Paulo, uns 500km. Agora imagine fazer esse trajeto duas vezes, matemática
básica, 1.000km. Distância que Felype percorre
só para chegar na capital de seu estado. Essa é a realidade que em vive, sem falar das condições das estradas - de terra batida, na maior parte das vezes, ou mais cheias de buracos que de asfalto.
As dimensões continentais do Pará fazem seu trabalho ser de muita perseverança
para a apuração. Tudo é muito longe e caro. Adms conta que para
ir de Altamira para Belém paga R$1.800,00 de avião. É imensurável o custo para
ser jornalista na região. Ou ganha dinheiro, muito dinheiro; ou faz mágica com o
dinheiro; ou tem ajuda de terceiros.
Fazer jornalismo sozinho? O dedo indicador
move rapidamente de um lado para o outro para reforçar que é impossível.
Além disso, ser jornalista na
Amazônia é ser, em algum momento, ameaçado. Quem se destaca tem medo, e medo
Felype não tem, caso contrário não estaria ali. Como disse humoradamente no
painel em que participou na Abraji "ou a gente é jornalista ou é c@#@*, não dá para ser
as duas coisas”, com o perdão da expressão.
Segundo ele, não se pode ter medo dos “bam bam bans”, nem do prefeito que o
ameaçou... Suas mãos batem na mesa para salientar que o seu tesão pelo jornalismo
está em confrontar a verdade com a verdade.
As respostas que busca não são para si, mas para o público. Acredita que
esse é o papel do jornalismo investigativo.
A mãe de Adms? Fica
entre e cruz e a espada. Apesar da felicidade em saber que o filho tirou foto
com a Miriam Leitão, se preocupa com o que ele escreve e fala. Além da coragem, a
diplomacia, segundo ele, também é muito usada como estratégia. Procura o familiar da
pessoa que o ameaça e explica seu trabalho, que é puramente o jornalismo, e que rende-se ao dizer: “ei, psiu, fulano, não tenho nada contra você”.
A esposa? Suplica de
joelhos para largar o jornalismo, até lhe oferece opção para trabalhar
no campo, mas Adms, com sorriso de lado e totalmente submetido ao
fascínio da profissão, dá de ombros: “pois é, eu gosto de jornalismo”.
Durante a conversa, Felype sempre dava uma pausava
entre um raciocínio e outro, buscando a plena compreensão do que dizia. Em um certo momento, com a mão no queixo, quase exala um suspiro de quem falou algo empolgante e
espantoso ao mesmo tempo. Pensando em todo
seu retrospecto, o paraense chega à constatação de
que a única coisa capaz de unir todos os povos
é a comunicação, que assim como o sorriso, é universal. A partir dela,
foi possível contar sua história e nos emocionar ao enxergar no reflexo
dos seus olhos a paixão pela profissão que também escolhemos seguir.
O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.
O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.
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