27/06/2019

No WhatsApp, apenas 8% do conteúdo sobre as eleições de 2018 era verdadeiro

Coalizão de 24 veículos brasileiros atuou durante período eleitoral para desmascarar informações virais 

Por Helena Mega
Representantes de diversos veículos que integram  projeto Comprova no Brasil (Foto: Alice Vergueiro / Abraji)

Claire Wardle está espantada com o Brasil. Em 2018, a pesquisadora inglesa trouxe para o país um projeto para monitorar conteúdos virais relativos à campanha eleitoral na internet. Em sua sexta visita às terras brasileiras, ela veio apresentar os resultados da iniciativa em números, o que inclui 78.462 arquivos submetidos pelo público via WhatsApp. 

 No comando do First Draft, organização sem fins lucrativos que pesquisa e combate a desinformação nas redes sociais, Claire foi a responsável por convocar uma coalizão inédita no Brasil: 24 veículos de comunicação, concorrentes entre si, trabalhando em conjunto. O lançamento do Comprova, como a iniciativa foi batizada, aconteceu em 28 de junho de 2018, durante a 13ª edição do Congresso da Abraji. 



Foram 12 semanas de trabalho e 146 apurações, encerradas com o fim das eleições. Das análises, apenas 8% ganharam o selo de “verdadeiras”, mostrando o nível do debate que ocorreu no último período eleitoral brasileiro. As demais eram informações falsas, parcialmente falsas, adulteradas, ou enviesadas. Cada checagem foi feita de maneira cruzada, contando com a participação de pelo menos três jornalistas de diferentes redações. 

Medindo a percepção da audiência, a pesquisa apresentada por Claire hoje mostrou que 79,6% das pessoas que acessaram os vereditos consideraram o Comprova confiável. Entre elas, 40,4% afirmaram que a rede de checagem os ajudou a decidir o voto nas eleições de 2018. "Quase caí da cadeira quando vi os dados", diz a pesquisadora. A experiência anterior dela havia sido nas eleições de 2017 na França, quando o CrossCheck France funcionou por 10 semanas e recebeu 600 contribuições do público — número distante dos mais de 78 mil arquivos enviados no Brasil. 

A surpresa vem também da parte brasileira do Comprova. "Há um ano estávamos nos perguntando se o projeto iria funcionar, se haveria o que desmascarar. E tinha muito", coloca Angela Pimenta, presidente do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) que acompanhou o desenrolar do projeto. Uma preocupação da Angela são as futuras eleições de 2020, em que a possibilidade de disseminação de conteúdos falsos partindo de cada um dos mais de 5 mil municípios brasileiros é “infinita”. Para Claire, um grande desafio é a viralização de áudios, arquivos de fácil manipulação pela imitação de vozes, mas que dependem de escassos peritos especializados para terem a autenticidade comprovada. Nova fase e políticas públicas A coalizão dos veículos ganha uma nova fase em 2019. 

Agora, o foco é mais amplo: monitorar mensagens virais relacionados a políticas públicas no Brasil. “As informações falsas não acabam no dia da eleição. Uma das razões de fazer o trabalho no Brasil é a confiança na mídia estar despencando”, explica Wardle. Para decidir o que é viral ou não, o termômetro mais usado é o WhatsApp, que absorve informações de outras redes sociais e é por onde ocorre a interação direta com o público, que envia ao Comprova as informações anônimas que circulam em massa. 

Os veículos participantes decidem ou não se querem investigar o assunto, e são livres para produzir matérias próprias a partir das conclusões. Mas nem tudo o que é viral será checado, pois um cuidado é evitar que a busca pela veracidade dê mais evidência a um boato que não passa disso: boato. Algo positivo da primeira edição é que não houve erros no processo. 

A fase dois acontecerá entre 15 de julho e 15 de dezembro de 2019, seguindo com a coordenação da Abraji e a metodologia do First Draft. “Todo mundo que participou aprendeu muito, por isso não deve ficar apenas no passado. Vamos manter o Comprova vivo”, anunciou Daniel Bramatti, presidente da Abraji. Para a próxima etapa, saem a Gazeta do Povo e a Veja. Entra o jornal Correio, da Bahia, e os demais participantes estão mantidos: UOL, AFP (Agência France Presse), Band, Band.com.br, BandNews FM, BandNews TV, Canal Futura, Correio do Povo, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, Gaúcha ZH, Gazeta Online, Jornal Correio, Jornal do Commercio, Metro Jornal, Nexo, Nova Escola, NSC Comunicação, O Povo, Poder360, Rádio Bandeirantes, revista piauí e SBT. 


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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