10/07/2019

O jornalismo investigativo resiste na América Latina

Jornalistas sul americanos discutem obstáculos vividos no continente para atuar na área 

Por Luana Dias 
Edição Germano Assad

O primeiro a falar sobre os Desafios do Jornalismo investigativo na América Latina no congresso da Abraji foi Octavio Enriquez, repórter do jornal nicaraguense La Prensa. 

Antes de abrir o slide com a apresentação que havia preparado para o evento, Enriquez alertou: “Estamos em uma situação crítica do ponto de vista dos direitos humanos [na Nicarágua]. Trago uma apresentação com imagens que acredito serem muito fortes”. 

As imagens contextualizavam o governo opressivo do presidente Daniel Ortega e de sua esposa Rosario Murillo. Conforme dados de 2018 disponibilizados pelo relatório preliminar da Associação Nicaraguense dos Direitos Humanos (ANPDH), no período de 19 de abril a 25 de julho, foram mortas 448 pessoas pela repressão do governo. 

Enriquez apontou, ainda, que 70 jornalistas foram exilados no mesmo ano. Apesar das circunstâncias, o profissional declara: “É aí onde eu acredito que o jornalismo tem um enorme sentido. Ele verifica uma notícia contra um governo que quer impor sua realidade paralela. Qual é a verdade paralela? A de que vivemos bonito, de que estamos muito bem desde abril de 2018 quando um grupo se atreveu a levantar-se e questionar essa dupla que está no poder”. 

Desafios 
Sustentar a circulação física do jornal La Prensa é uma grande dificuldade. Ele cita que, devido à crise financeira, a publicação física será possível por cerca de mais 43 semanas, enquanto a tinta e a bobina de papel estiverem disponíveis. Para ilustrar a dificuldade atual, Enriquez contou que o jornal passou de 32 páginas para oito. 

Ainda que a Nicarágua passe por um momento social, político e econômico diferente do que é vivido em outros países da América Latina, Fabián Werner, jornalista uruguaio coordenador da rede IFEX-ALC e diretor do Sudestad, apontou: “O primeiro [desafio do jornalismo investigativo], acredito que é bastante comum a todos os países latino-americanos. Tem a ver com as crises nos meios midiático, especificamente com o financiamento de investigações jornalísticas”. 

Werner relata a dificuldade de convencer editores a investir recursos humanos e financeiros para as investigações. Para ele, isso acontece porque a atividade requer dedicação e impede que os jornalistas façam a cobertura diária necessária ao jornal. 

“Além disso, uma investigação jornalística pode gerar problemas, levar prejuízos ao meio e com a relação com os anunciantes. Então o que se faz nesses meios é evitar a investigação”, aponta. 

No contexto uruguaio, o jornalista destaca que os veículos de comunicação jornalística são concentrados nas mãos de poucos que, coincidentemente, também são donos de outros negócios. 

Werner esclarece que apesar de o Uruguai não vivenciar um contexto de censura, a falta de independência dos veículos inibe os jornalistas de explorarem determinados temas. “Isso gera uma restrição na circulação de informação”, destaca. 

Iván Ruiz, jornalista investigativo no jornal argentino La Nacion, discursou sobre a polarização política da Argentina que se infiltrou na cobertura jornalística. Ele elenca o cenário, conhecido como La Grieta, como um dos mais agravantes para o jornalismo investigativo de seu país. 

A polarização envolve duas correntes político-ideológicas: aqueles que apoiam a ex-presidente Cristina Kirchner e o atual dirigente da Argentina, Mauricio Macri. 

O jornalista de La Nacion relata que a situação é preocupante porque profissionais da área reconhecidos acabaram defendendo um dos lados de La Grieta. 

Caminhos possíveis 
Para evitar circunstâncias como essa, Ruiz indicou que o veículo onde trabalha está constantemente preocupado em elaborar maneiras de se manter imparcial quanto aos dois movimentos ideológicos. 

“Há um conceito que se criou na Argentina que se chama Coreia de Centro. Chamam assim quem está no centro. Coreia do Norte são os Kirchneiristas e Coreia do Sul são os capitalistas. O que está flutuando é nosso trabalho, o jornalismo que conta os fatos o mais próximo possível da realidade”, brinca. 

Na mesa também estavam presentes a mediadora Adriana León, profissional do IPYS, e a jornalista Diana Cariboni, do OpenDemocracy e da Revista Noticias Uruguay. 

Relacionando a falta de recursos nas redações para investir em jornalismo investigativo, Diana explora outro caminho: “Os recursos internacionais estabelecem uma agenda e ela, geralmente, está associada à América do Norte, o que a eles interessa que nós reportemos ou investiguemos. Às vezes nossos interesses se encontram em matrimônio feliz e podemos conseguir os recursos para investigar”.

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