Google Earth, Image Google Search e Sector 035 ajudaram equipe da BBC a descobrir onde, quando e quem havia participado do assassinato de duas mulheres e duas crianças
Por: Paulo Yamamoto e Camilo Mota
Edição: Gabriela Vasques
A investigação foi publicada em setembro de 2018, mas começou antes: com um chocante vídeo do assassinato de duas mulheres e duas crianças, que circulava pela internet desde julho daquele ano.
Internautas supunham que o vídeo teria sido gravado na República dos Camarões, o que levou ao governo do país, prontamente, a se posicionar sobre o caso alegando que se tratava de fake news. O ministro da comunicação Issa Tchiroma defendeu que o uniforme utilizado pelos soldados do vídeo não era o camaronês, assim como as armas que não fariam parte do exército do país.
A partir dessas declarações, a equipe da BBC começou a investigação. “Como jornalistas, sentimos que tínhamos de investigar a origem do vídeo e a única maneira era começar pela localização. Para isso, utilizamos a técnica de Open Source (fonte aberta) para verificar o vídeo”, afirmou o produtor e repórter Aliaume Leroy que estava participando da investigação.
Por meio de ferramentas como Google Earth, Image Google Search e Sector 035, os repórteres acessaram alguns fatos essenciais para concluir onde, quando e quem havia cometido os assassinatos. Os repórteres também contaram com fontes que estavam na República dos Camarões, além da colaboração de jornalistas e interação com testemunhas através de uma hashtag utilizada no Twitter para coletar informações.
A paisagem, que aparece no vídeo, foi fundamental para iniciar as buscas. Utilizaram imagens de satélite para descobrir, por meio da topografia e vegetação, o local exato do crime. Eles também identificaram a fala “Oh BH” – pronunciado em francês – que supostamente se refere ao grupo extremista Boko Haram, fundamentalistas que atuam na região norte da Argélia e na região de Chade, em Camarões.
Assim, descobriram que o assassinato realmente aconteceu onde suspeitavam, já que é o único país em que as pessoas falam francês e o Boko Haram atua, além das imagens realizadas por satélite. Dessa forma, eles tiveram mais de uma maneira de provar que o crime realmente foi em solo camaronês. A BBC detectou, até mesmo, que a base militar ficava a um quilômetro do local do crime.
Além destes fatores, no vídeo é possível ver a disposição do sol do crime, e, a partir da angulação da sombra de um dos soldados, pôde-se aplicar fórmulas da trigonometria. Com a matemática básica, foi possível limitar o período do ano em que o crime ocorreu: entre março e abril de 2015 (ano evidenciado pelas imagens de rastreamento).
Com os dados coletados e o trabalho de investigação, no começo de 2020, as autoridades camaronesas chegaram a sete suspeitos. Em agosto, dois deles foram absolvidos e cinco condenados. A pena ainda não foi decidida.
Ainda de acordo com Aliaume, jornalistas do Le Monde tiveram acesso a documentos que “mostravam uma determinação dos militares camaroneses para que assassinassem pessoas desse grupo terrorista”. E, como prova do crime consumado, os superiores obrigam os militares a gravarem as execuções. “É o abuso de direitos humanos pelos militares camaroneses. Um ciclo que parece não acabar nunca”, completa o jornalista.
Aliaume Leroy destaca algumas ferramentas e posicionamentos que ajudam jornalistas e testemunhas de cenas de violação dos direitos humanos a denunciarem os casos:
- Se vocês estiver presenciando alguma violência, antes de gravar um vídeo, veja se está em risco;
- Se estiver seguro para gravar, colete o máximo de elementos possíveis, como a localização ao redor;
- Muitas vezes há câmeras de segurança locais e esses vídeos podem ajudar jornalistas;
- Se estiver investigando um lugar perigoso é preciso se atentar para preservar também as testemunhas, usar criptografia ao se comunicar com essas pessoas.
Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher.
Criação de arte: Isabella Vieira.
Aquarela: Nayani Real.
A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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