12/09/2020

Da escolha da pauta à publicação: como são feitos os podcasts de política?

Os jornalistas Renata Lo Prete e Conrado Corsalette falam sobre o processo de produção dos podcasts 'O Assunto' e 'Durma com essa'

Por: Miréia Figueiredo e Ruam Oliveira

Edição: Pâmela Chagas



Roteirização, gravação e edição. O processo aparentemente simples de produção de um podcast, na verdade, guarda uma série de particularidades em relação a outros produtos jornalísticos. Na mesa “Saiba como são produzidos os podcasts que falam da política nacional”, realizada neste sábado (12) durante o 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a jornalista da TV Globo, Renata Lo Prete, e Conrado Corsalette, do jornal Nexo, compartilharam suas experiências na descoberta de contar histórias por meio do áudio.

No caso do podcast O Assunto, produzido para o site G1, Lo Prete conta que a mobilização para definir a pauta começa cedo, por volta das 10h da manhã. A equipe, composta por seis pessoas, discute via Whatsapp possíveis temas a serem abordados no episódio do próximo dia. A jornalista explica que é possível ter uma ideia de assunto na noite anterior e que às vezes isso acontece, mas sempre tem em mente que por se tratar de questões muito presentes no noticiário, a pauta pode mudar. "A gente precisa ter um plano, mas também precisa ter desapego desse plano para migrar para um mais quente que apareça", conta.

Definida a pauta é hora de encontrar as fontes e escrever o roteiro. A repórter afirma que esse processo acontece entre o fim da manhã e fim da tarde, período em que faz a gravação.

Diferente de O Assunto, que é publicado logo no comecinho do dia, o Durma com essa, produzido pelo Nexo, é liberado no fim da tarde. O diretor de redação do jornal, Conrado Corsalette conta que desde a sua fundação, em 2015, o Nexo investe nos conteúdos em áudio. Ele destaca o podcast “The daily", produzido pelo jornal norte americano The New York Times, e o coloca como responsável por definir "um paradigma de podcasts diários”. O Durma com essa foi pensado tendo o The Daily como uma inspiração.


É no período da tarde que o podcast de notícias do Nexo começa a tomar forma. Em uma reunião de pauta, o editor da manhã apresenta o que está sendo discutido no momento. Pela própria particularidade do veículo, que lida com menos assuntos, mas de maneira aprofundada, o tema que é escolhido para o podcast geralmente é um que esteja quente no noticiário e que não tenha sido muito abordado nos textos do jornal.

Depois de selecionado o tema, a produção prepara o roteiro, grava e edita. Tudo acontece em um curto espaço de tempo. "O nosso compromisso é entregar para o ouvinte o material às 18h30, pois é o horário em que as pessoas estão saindo do trabalho", conta Corsalette.

O podcast apresentado por Lo Prete é a última coisa que a jornalista ouve no dia, antes de finalizar o expediente de trabalho. Ou seja, na madrugada. Após encerrar sua participação no Jornal da Globo, Lo Prete ainda tem a missão de ouvir o episódio que irá ao ar na manhã seguinte e se encontrar erros, corrigi-los antes da publicação.

Ambos os jornalistas contam que a equipe responsável pelos podcasts é enxuta. Assim, a agilidade e prontidão dos envolvidos, como destaca Renata, é fundamental para manter a periodicidade do material.


Além disso, precisam ser criativos, seja para pensar na adição das sonoras, seja na própria captação do som. Conrado comenta que durante a pandemia tem gravado os episódios em casa. Depois de tentar estratégias de criação de um estúdio improvisado debaixo de edredons, hoje, grava pelo seu próprio celular.

A respeito desse cuidado com o som, Renata explica como seu envolvimento com os podcasts alterou sua percepção sobre outros tipos de conteúdos. Até assistir um filme se tornou uma outra experiência. E pode, inclusive, servir de inspiração para escolher o assunto e até mesmo as sonoras dos episódios.

E falando sobre inspiração, para os que se sentem impulsionados em produzir seus próprios podcasts, as dicas dos jornalistas são: Ouvir muitos podcasts, de diferentes formatos, tamanhos e temas e colocar em prática o projeto que possui. "Acho que a prática traz muita sabedoria, muitas ferramentas que talvez só se consiga praticando mesmo", diz o diretor do Nexo.

A apresentadora do Jornal da Globo sente na sua rotina a diferença de linguagem entre o telejornal e o podcast. Enquanto o primeiro tem narrativa assertiva e objetiva, com o uso do tradicional lead, o segundo, como ela mesma coloca, tem a intenção de buscar uma história com estrutura mais narrativa: “vem cá, deixa eu te contar como isso começou”.

Um consenso entre os três integrantes da mesa é de que o próprio formato do podcast molda esse discurso. O ouvinte, geralmente, escuta pelo fone de ouvido. Isso direciona totalmente a fala, o tom de voz e o modo de explicar do jornalista. Outra particularidade deste modelo de notícia é possibilitar que o público faça outra coisa enquanto escuta os conteúdos.

Talvez por isso seja um formato tão atrativo para jovens. “Meu filhos jamais chegaram perto do jornal impresso, e eu nunca tive a presunção de que eram mal informados. Só se informavam de outra maneira. Podcast é a primeira coisa que eu faço que eu tenho um retorno consistente de audiência jovem”, explica Lo Prete.



Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Isabella Vieira

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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