29/06/2019

A era dos extremos: o leitor quer ponderação ou ativismo?

A necessidade de diferenciar militância do jornalismo profissional 

Por Gabriela Neves e Weslley Galzo 
Edição Tiago Angelo 


Da esquerda para a direita Carla Jimenez (El País Brasil), Paula Miraglia (Nexo), Daniela Pinheiro (Época) e Fernando Rodrigues (Poder360) - Foto: Augusto Godoy / Repórter do Futuro
Entre os palestrantes convidados para cobrir o painel surgiu de forma urgente e unânime, logo no início, a necessidade de debater o chamado jornalismo militante e sobretudo diferenciá-lo do jornalismo profissional.“Quando a gente fala de jornalismo militante eu não sei se é jornalismo... jornalismo profissional é outra coisa”, disse Fernando Rodrigues, diretor de redação do Poder 360. 

A pertinência do assunto atraiu muitos espectadores e fez com que a sala ficasse lotada. Com a plateia instigada pela discussão, ao dar espaço para as perguntas, Nayara Felizardo, repórter do Intercept Brasil na região Norte e Nordeste, fez uma pergunta que arrancou aplausos da plateia. “Se uma pessoa é machista, homofóbica e misógina, dar nome a essas características verdadeiras é ser militante?”, questiona. 


Rodrigues respondeu a adjetivação pode ser perigosa, “eu tenho minhas opiniões e sei quais pessoas do governo são de fato machistas, homofóbicas e racistas, mas isso é minha opinião como jornalista não devo usar essas características", pontua. 

Linha editorial - Diferentes maneiras de se colocar 
A linha editorial do jornal em geral deixa claro como determinadas coberturas serão feitas. Para os palestrantes, é um consenso que essas posições nem sempre estão visíveis dentro das redações. 

Quando são questionadas, dizem que o jornalismo deve ser imparcial. Daniela Pinheiro diretora de redação da revista Época, diz “eu acho que o jornalismo militante pode existir, mas tem que deixar claro sua linha”, destaca. 

Já Rodrigues defende que o jornalismo seja o mais imparcial possível, mas lembra da existência de veículos com linhas editoriais bem definidas. O jornalista contou que nos anos 1980, ao fazer um processo de treinamento da Reuters, proibiam o uso de determinadas palavras. Posições como essa, acontecem nos principais jornais dos EUA. 

Para Carla Jimenez, editora do El País, os leitores querem saber o que o El País pensa. A jornalista também comenta que mesmo sendo um assunto que já tenha sido dado em outros grandes jornais e a redação do El País decide dar algo pequeno sobre o assunto, costuma gerar cliques. 

A crise da imprensa - A decisão do público entre o conteúdo jornalístico e o banal 
Os palestrantes discutiram a crise de credibilidade da imprensa e a questão da qualidade das publicações para elevar o nível do debate público nacional. Para a diretora de redação da Época, é preciso que haja mais aproximação entre os diferentes veículos da imprensa tradicional para definir as prioridades jornalísticas e aquilo que é de fato de interesse público. “A gente ficou afogado no show de besteiras”, diz Daniela, em alusão a frase dita pelo general e ex-ministro, Carlos Alberto Santos Cruz, em entrevista concedida ao veículo que ela chefia. 

Segundo a editora, em busca de garantir uma cobertura aprofundada da gestão Bolsonaro os jornais passaram a repercutir todas as ações de um governo que é muito ativo, mas que na maioria das vezes não têm relevância para a sociedade. 

Em oposição à ideia da diretora de redação da Época, Fernando analisa que o cidadão comum, que consome jornalismo, não está preocupado com a qualidade e a técnica empregada na produção, mas inclinado a buscar por conteúdos menos denso e sem o rigor profissional. “Eu acho que as pessoas não querem jornalismo profissional. Eu sou cético. Acho que as pessoas querem Big Brother”, afirma. 

Já Carla Jimenez, editora executiva do El País, acredita que o consumidor está a par dos métodos de produção jornalística e é capaz de diferenciar as linhas editoriais, em busca da opinião de cada veículo sobre determinado assunto. “ Às vezes a gente dá só uma nota, mas é a mais lida do dia, porque eles querem saber a opinião do El País sobre o assunto”, diz Carla. 

A publicidade oculta no jornalismo - Branded content 
Paula Miraglia, mediadora da mesa e diretora geral do Nexo Jornal, trouxe para o debate a presença das marcas e grandes corporações, que produzem o branded content (publicidade em forma de conteúdo) e em alguns veículos são publicados sem a distinção clara entre conteúdo noticioso e reportagem paga, o que pode ser avaliado como outro fator para a polarização. “Eu vejo essa ideia (branded content) contaminando o jornalismo...isso deve ser uma coisa debatida no jornalismo hoje, como estabelecer barreiras”, afirma a diretora do Nexo. Segundo ela essa questão é tão urgente, quanto a discussão da polarização.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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