27/06/2019

Caso Evandro: o podcast que trouxe à tona um dos casos mais obscuros da história do Brasil

Quarta temporada do "Projeto Humanos" mistura apuração e entretenimento e tem mais de 4 milhões de visualizações

Por Weslley Galzo 
Edição Cristiane Paião


Ivan Mizanzuk falou sobre storytelling (Guto Marcondes / Abraji)
"Eu só queria contar histórias", é o que diz Ivan Mizanzuk, professor universitário que nunca havia trabalhado com jornalismo, mas acabou se tornando uma referência na área. Segundo ele, o que o motivou a desenvolver um projeto tão grande, como o do Caso Evandro, foi sua paixão por storytelling e acreditar que essa é uma história que merece ser contada. 

Ivan destaca que o fato de ter sido uma criança justamente na época em que uma onda de sequestros aterrorizou o Paraná também foi importante. Só depois de adulto, ao pesquisar na internet se deu conta de todo o ocultismo em que estavam envolvidos à tortura do garoto de apenas 6 anos supostamente assassinato pela família Abagge. Estas foram as duas principais razões para que este fosse o tema da 4º temporada do Projeto Humanos, sucesso na chamada "podosfera", universo dos assíduos ouvintes de podcasts.



Mestre em religião pela PUC-SP, Ivan conta que os seus estudos sobre cultos religiosos, assim como a falta de informações precisas sobre esse aspecto do caso na internet foram fundamentais para que ele decidisse investigar a fundo os autos dos processos em Guaratuba-PR. O crime aconteceu em 1992, mas as investigações de fato só começaram muito tempo depois. Como a família era poderosa na região, até mesmo policiais e outros profissionais que deveriam ser isentos não foram.

O caso Evandro marcou o judiciário brasileiro. Ele conta que apesar da polêmica em torno do assassinato e a distância temporal da apuração, conseguiu acesso aos documentos de forma muito simples: bastou enviar uma carta ao juiz da Vara responsável. Como ele relembra “processos são públicos”. 

Para Ivan, acompanhar o caso mudou sua opinião inclusive sobre as investigações da Lava Jato. "Eu ouvi de muita gente, mas não consegui verificar, que no Paraná tem muito jurado profissional que está toda vez em júri, já conhece os promotores locais, os juízes, mas não os advogados. Então, essa aproximação de promotoria com juízes já é antiga", ressalta.

A relevância do Projeto Humanos para o jornalismo brasileiro


Para Marcelo Trasel, diretor de jornalismo da Abraji, a temporada 4 do podcast é uma grande referência. "É um dos maiores esforços em se compilar dados, apurar e publicar em mídia audiofônica da história do jornalismo brasileiro", afirma.


Mizanzuk relata que a audiência do programa e o financiamento coletivo para a produção saltaram de forma expressiva após a veiculação do Caso Evandro. Ele reitera que gosta de produzir conteúdo para a mídia independente, porque há muito mais liberdade - “não me vejo submetido à um editor que vai dizer Ivan isso não pode. Quem é você para dizer o que não pode?”.


No entanto, o idealizador do Projeto Humanos pondera que mesmo independente, a responsabilidade jornalística norteia toda a produção do programa: “Haviam coisas que poderiam ser muito interessantes no foco narrativo, mas que não constavam nos autos e poderiam comprometer alguém, então eu excluo.”

A edição do programa e as técnicas de storytelling também são alguns dos fatores a que Ivan atribui o sucesso do programa: “Se você lê o processo não é fácil de entender...Tem muito da minha edição, de criar expectativa e tirar o teu chão como ouvinte, daí vêm as técnicas de storytelling.”

Questionado sobre a metodologia de trabalho utilizada para produzir um projeto tão extenso, com tantas fontes e documentos oficiais, ele esclarece que toda apuração foi feita com base em pesquisa científica: “É o que eu aprendi no mestrado e no doutorado, junto técnicas de literatura e storytelling para produzir todos os podcasts”. Para ele, essa é a forma ideal de relatar os eventos ocorridos, pois devem soar como “um filme que você ouve”, destaca.

Mizanzuk dispõe de um grande acervo de documentos, mas como ele mesmo pontua, prefere em alguns momentos não usar declarações oficiais para que os ouvintes criem suas próprias interpretações. "Eu gosto muito de usar o silêncio, de deixar em branco para as pessoas completarem da maneira que elas acharem melhor", poetisa.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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