28/06/2019

Projeto Comprova: Verificação de fatos e transparência do processo no combate à desinformação

A iniciativa analisou mais de 240 mil mensagens de Whatsapp durante a campanha eleitoral de 2018

Por Stéfanie Rigamonti
Edição Ronald Sclavi


Pedro Burgos (Projeto Comprova) Foto: Stéfanie Rigamonti 


As eleições do ano passado trouxeram um componente novo no âmbito das discussões políticas no meio digital: mensagens de Whatsapp. Por meio dessa ferramenta, importantes conteúdos informativos foram veiculados, mas a quantidade de desinformação também compartilhada tornou o aplicativo alvo dos propagadores de notícias falsas. Não à toa, acabou sendo objeto de estudo no Brasil por meio do Projeto Comprova.

A iniciativa, que mobilizou 24 veículos de comunicação e que é coordenado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), foi tema da palestra “O banco de dados do Projeto Comprova: O que 240 mil mensagens de Whatsapp revelam sobre a desinformação na campanha eleitoral”. A mesa teve como palestrante Pedro Burgos, desenvolvedor do projeto Impacto.jor e colaborador no Comprova. A mediação ficou por conta de Sérgio Lüdtike, editor-chefe do First Draft News.




Pedro Burgos mostrou ao público todo o processo de captação e verificação das mais de 240 mil mensagens analisadas e revelou alguns detalhes interessantes de toda essa pesquisa, agora disponível a pesquisadores e veículos de comunicação por meio de bancos de dados e dashboards.

Um dos pontos levantados, e que mais surpreenderam os responsáveis pelo projeto, é que havia pouquíssimos conteúdos falsificados de forma profissional, entre o conteúdo “desinformativo” amplamente veiculado via aplicativo. De maneira geral, o material continha manipulações esdrúxulas, feitas de forma caseira e sem preocupação com as “provas” das mentiras veiculadas.

Os áudios amadores foram campeões dentre os arquivos estudados pelo grupo de pesquisa - no total, esse formato somou 49 mil documentos. Com relação às imagens, havia poucos memes, e a maioria das fotos eram reais, porém tiradas do contexto ou com legendas falsas.

Para além do formato, com relação aos conteúdos das mensagens, o assunto das fraudes nas urnas eleitorais liderou os compartilhamentos no Whatsapp.

Transparência frente ao público

Um tema muito discutido durante a mesa foi a importância da transparência no processo de investigação. Embora Pedro Burgos tenha comentado que, em muitos casos, a verdade não muda a forma como as pessoas estão viciadas a pensar, é importante deixar explícito a forma como conteúdos falsos são verificados e desmentidos. Essa é uma maneira de atingir a raiz do problema: fazer com que pessoas parem de acreditar em “desinformações”.

“Na minha opinião, notícias falsas são mais um sintoma do que a causa. O fato de as pessoas acreditarem em coisas absurdas é um problema maior do que coisas absurdas que são produzidas”, argumentou Pedro Burgos. 

“Jornalistas têm que ser mais transparentes sobre o processo para explicar por que você deve confiar naquilo. Eu apresento como fiz, como cheguei a essa conclusão, e se eu te der os mesmos dados e o meu processo, você vai chegar à mesma conclusão”, afirmou.

Futuro do Projeto Comprova

Durante a mesa, o mediador da palestra, Sérgio Lüdtike, anunciou que a partir do dia 15 de julho o projeto dará início a uma nova fase de verificação de mensagens de Whatsapp, desta vez focado em políticas públicas do governo federal.

 “O formato será um pouco diferente. Nosso foco agora vai ser investigar toda a desinformação que circula em função das políticas públicas. E a gente vai agregar ao trabalho de verificação, um pouco de contexto. A gente vai tentar contextualizar um pouco mais as informações sobre itens específicos”, informou Lüdtike.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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