29/06/2019

Setor de tecnologia deve ser pautado como estrutura de poder

Jornalistas destacam necessidade de abordagem crítica na cobertura do tema


Por Géssica Brandino e Stéfanie Rigamonti
Diego Salazar (No hemos entendido nada), Gabriel Dance (The New York Times), Guilherme Canela (UNESCO), Tatiana Dias (The Intercept Brasil) e Sérgio Spagnuolo (Volt Data Lab/Abraji) - Foto: Augusto Godoy
Há cinco anos, as maiores empresas mundiais eram ligadas ao petróleo. Hoje, esse lugar é ocupado pelo setor de tecnologia, com Amazon, Apple, Google, Microsoft e Samsung como as marcas mais valiosas, segundo a Brand Finance. O Facebook aparece em 7º lugar. Justamente por isso, esse ecossistema deve receber uma cobertura crítica dos jornalistas.


A reflexão foi feita pelo conselheiro de comunicação e informação da Unesco, Guilherme Canela, no 14º Congresso de Jornalismo da Abraji, num debate sobre como investigar o setor.

“É preciso buscar e entender a questão da internet e a implicação que isso tem”, destacou o jornalista Diego Salazar, colaborador de veículos como The New York Times, Ojo Público e RPP. Autor do livro “No hemos entendido nada”, ele afirma que todos os dias há jornalistas que divulgam informações que não entendem sobre o setor, e que é preciso compreender os interesses dessas empresas. 


"Temos tardado bastante para nos dar conta que essa revolução tem implicações mais profundas. Não necessariamente negativas, mas muito mais profundas que imaginávamos", afirma Salazar.


Para o repórter do The New York Times, Gabriel Dance, ao longo das últimas décadas, empresas como Google, Facebook, Twitter não receberam uma cobertura crítica. “As pessoas olham para essas empresas como se fossem benéficas, como se elas unissem as pessoas. Enquanto isso, elas constroem bilhões de dólares em suas contas, e os usuários não. Facebook é um publisher e não uma plataforma”, afirmou.


Já Canela definiu a internet como um ecossistema complexo, que envolve “uma série de atores e de seus interesses legítimos e ilegítimos, criminosos e de boa fé, coisas boas e coisas ruins".


Foi justamente no impacto social causado por esses atores que a repórter Tatiana Dias, do The Intercept Brasil, encontrou seu foco de interesse na cobertura do setor. “A gente tem que tratar essas empresas como grupos poderosos que são”, disse. 


Fundador da agência de jornalismo de dados Volt Data Lab, Sérgio Spagnuolo lembra que os algoritmos presentes nas redes agem de forma discriminatória, favorecendo conteúdos extremos, mesmo argumento também destacado por Tatiana.


"Vídeos políticos acabam levando a vídeos de extremistas políticos. O ecossistema, que não sabemos como funciona porque não é aberto ao escrutínio público, acaba privilegiando coisas que são potencialmente danosas. E as empresas não abrem isso para a gente", diz a repórter.


Além do direcionamento do conteúdo, Dance destaca que mesmo aplicativos aparentemente inofensivos, como de temperatura, repassam a localização do usuário para dezenas de empresas. Tatiana acrescenta que é papel dos jornalistas ensinar pessoas a proteger os dados pessoais nas redes.


"A gente tem inúmeros exemplos de como nossos dados foram usados para fins que não os que foram ditos para gente. Isso em poder de um estado autoritário pode ter consequências que a gente não consegue imaginar”, disse. 


Em meio a todo esse cenário, uma questão foi inevitável: como combater conflitos de interesse, uma vez que essas mesmas empresas patrocinam projetos jornalísticos?


Segundo Canela, o caminho é assegurar a diversificação de fontes de recursos, para garantir que a produção de notícias não esteja vinculada a interesses corporativos. Ao mesmo tempo, cabe às empresas jornalísticas serem transparentes sobre quem as apoia. 


Spagnuolo citou como exemplo o Atlas da Notícia, projeto que coordenou junto à equipe do ProJor e que recebeu o apoio do Facebook. Segundo ele, não houve qualquer interferência no conteúdo produzido. 


"Existe uma percepção de conflito de interesse, mas não há uma interferência direta ou indireta. Todo mundo é ligado a alguém, o dinheiro tem que vir de algum lugar".


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.



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