30/06/2019

Para além dos dados: Como transformar estatísticas e documentos em reportagens interessantes

Estadão, G1 e Folha de S. Paulo revelam bastidores de importantes matérias feitas a partir de dados
Thiago Reis, do G1, fala sobre a reportagem de dados “Escravos sem Correntes” . Foto: Alice Vergueiro.

Por Samara Najjar

Transformar estatísticas e documentos em histórias de interesse público é um dos maiores desafios do jornalismo de dados. Para além de traduzir planilhas e convertê-las em textos, jornalistas também apostam em diferentes recursos para prender a atenção do leitor e explicar temas importantes de forma mais didática.

A elaboração de um infográfico foi uma das principais etapas da produção do Basômetro  2.0, do jornal Estadão. O projeto trata-se de uma ferramenta online que permite medir o governismo de cada partido político ou deputado entre os anos de 2003 até os dias de hoje. Nele, há registros dos mais de 844 mil votos dados por 1.811 parlamentares em todas as 2.427 votações realizadas na Câmara nos últimos 17 anos.
De acordo com Rodrigo Menegat, responsável pela parte infográfica do projeto, o intuito do jornal era oferecer uma plataforma onde todos pudessem explorar e fazer uma pesquisa rápida sobre as pautas do Governo. “As pessoas têm interesse em dados. Temos que oferecer alternativas para ensiná-los a analisar. Nesse contexto o infográfico e o design são muito importantes”, disse.

A inserção de conteúdos multimídias na reportagem também foi uma das apostas do site G1 na plataforma “Escravos sem Correntes”. O veículo analisou cerca de 33 mil páginas de documentos do Ministério do Trabalho que tratavam de infrações sobre trabalho escravo no país. Na época, em 2017, o então presidente Michel Temer iniciava discussões para reformulação das normas trabalhistas.

“Além de mostrar dados, fizemos uma “história em quadrinho” para contar relatos desses trabalhadores de uma forma que não precisássemos identifica-los. Usamos ilustrações e vídeos”, contou Thiago Reis, coordenador de dados do G1.

Ainda segundo Thiago, para conseguir os documentos, o G1 precisou fazer uma solicitação via Lei de Acesso à Informação (LAI). Na requisição, os jornalistas que atuaram no projeto pediram informações sobre os relatórios de fiscalização de ações referentes ao combate de trabalho escravo dos anos de 2016 e 2017 feitas pelos grupos móveis do Ministério do Trabalho, especificando os tipos de operações- identificação de infrações anotadas em estabelecimentos.

“Conseguimos mostrar que sempre que havia um resgate de trabalhador, eram aplicadas mais de 19 infrações. Não era uma simples saboneteira, havia muitas outras situações graves”, disse o coordenador. “Tínhamos números, mas também histórias reais que precisam ser contadas”, acrescentou Thiago.

GPS ideológico
Usando o modelo estatístico desenvolvido pelo cientista político computacional Pablo Barberá, a Folha de S. Paulo categorizou ideologicamente mil influenciadores e 1,7 milhão de seus seguidores no Twitter. Intitulada como “GPS Ideológico”, a plataforma teve o intuito de compreender melhor o debate político brasileiro na plataforma.

Daniel Mariani, um dos responsáveis pelo projeto, constatou que as pessoas têm dificuldade de seguir indivíduos com pensamentos ideológicos distintos dos seus. “Quando você segue o Bolsonaro, a chance de você seguir o Lula é praticamente ínfima. A partir desse raciocínio, construímos uma linha, por meio de gráfico, distanciando polos”, explicou.

Os seguidores desses influenciadores foram mapeados e inseridos em uma reta, mostrando se as convicções políticas eram ou não próximas as outras. “ Quando o assunto é política, uma pessoa de direita tende a retwittar assuntos de sua mesma ideologia. Porém, o mesmo não ocorre nas pautas de futebol ou cinema, por exemplo”, constatou Mariani.

A reportagem mapeou ainda quais eram as palavras e emojis mais utilizados por determinados nichos. “O emoji bandeira da Palestina, por exemplo, está inserida mais à esquerda, já a do Brasil, à direita”, observou o jornalista.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário