28/06/2019

Jornalismo profissional leva visibilidade ao ativismo nas periferias e grupos étnicos

Proximidade pessoal com temáticas cria cobertura com mais representatividade

Por Helena Mega e Vitória Macedo
Edição Ronald Sclavi


Donminique Azevedo, ex-editora-chefe do Correio Nagô. Foto: Vitoria Castro
Eles não querem ser vistos apenas como ativistas, mas sim como quem faz jornalismo profissional. São comunicadores envolvidos em projetos paralelos à mídia dita “tradicional”. O que os diferem é a preocupação em ampliar e vozes e perspectivas de grupos periféricos ou com recortes étnicos específicos.

“Não queremos ser classificados só como ‘uns alternativos’ que estão fazendo algo que ninguém vê”, ressalta a jornalista Donminique Azevedo, ex-editora-chefe do Correio Nagô, portal de mídia étnica da Bahia. O slogan do veículo, “informação do seu jeito”, mostra que o conteúdo é produzido buscando a melhor representação do povo pela mídia.




Para a comunicadora e educadora Naine Terena, é importante “contar histórias a partir das nossas próprias vivências”. Autora do livro Povos Indígenas no Brasil: Perspectivas no fortalecimento de lutas e combate ao preconceito por meio do audiovisual, Naine lembra a relevância da apropriação de linguagens e ferramentas pelos povos indígenas para transmitirem suas próprias narrativas. 

O ativismo está presente nos trabalhos das comunicadoras e não pode ser totalmente desvinculado deles, uma prova de que “a imparcialidade é uma utopia”, como pontua Azevedo. “Se cobrir racismo e desigualdade de gênero é ter um lado, então eu tenho um lado”, complementa. 

A diversidade presente nas periferias e também em relação a questões étnicas é prejudicada pela falta de diversidade nas redações. “Um monte de ‘bolas foras’ que ocorrem em redação poderiam ser evitadas se tivéssemos pessoas mais diversas dentro daquele espaço”, afirma Azevedo.

O Correio Nagô, chefiado por Donminique nos últimos três anos, está hospedado na cidade de Salvador, onde a maioria da população é negra. Apesar de cobrir uma temática relacionada ao cotidiano negro, o maior desafio enfrentado por ela foi tentar criar uma audiência engajada. Uma surpresa, considerando o longo histórico da imprensa negra no Brasil, tão antiga quanto a “tradicional”.

Seguindo a mesma tendência de produzir um jornalismo a partir de vivências específicas, Paulo Talarico foi um dos criadores da Agência Mural, que possui repórteres nas periferias da região metropolitana de São Paulo. O projeto nasceu depois que ele identificou não existir veículos de comunicação em algumas cidades da região ao mesmo tempo em que, em outras, há dominância de jornais locais que funcionam como replicadores de releases ou são movidos por interesses políticos.

Sustentabilidade

Assim como para qualquer veículo de comunicação, a questão da sustentabilidade financeira é central para esses veículos menores. Por muitos anos, a Agência Mural funcionou como um blog feito por voluntários, movidos apenas pela proposta de pautar a periferia.

Mais tarde vieram parcerias com outros veículos, como a Folha de S. Paulo, que hospeda conteúdos produzidos pelos correspondentes comunitários. “Se queremos desconstruir a ideia de que a periferia é toda ruim, precisamos estar ali [na Folha]”, diz Talarico.

Ainda assim, ocupar diferentes plataformas não significa deixar de lado o propósito inicial da Agência. “As fontes principais sempre vão ser os moradores”, lembra o jornalista. Com isso, eles cumprem o propósito de fazer uma notícia baseada em quem está nos bairros e vive aquelas realidades. É também uma forma de ampliar a audiência, já que veículos do tipo trabalham com equipes pequenas, o que nem sempre confere segurança pessoal ou jurídica aos repórteres, restringindo a cobertura noticiosa.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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