27/06/2019

Por que elas não falaram antes? Os bastidores do caso João de Deus

As investigações sobre um dos maiores escândalos sexuais do mundo

Por Joyce Moura e Luana Nunes
Edição Cristiane Paião e Pâmela Ellen Chagas Gama
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
Para Pedro Bial, um dos jornalistas envolvidos na cobertura de um dos maiores escândalos dos últimos tempos, apesar do preconceito e do machismo, responder à pergunta "por que elas não falaram antes" é importante. "A gente sabia que o público ia fazer essa pergunta, então era importante que a gente perguntasse isso, com todo o cuidado e com todo o respeito", enfatiza. 

Foi justamente para dar peso ao depoimento das mulheres abusadas por João de Deus que a equipe envolvida na cobertura precisou se preparar inclusive psicologicamente, para tratá-las como sobreviventes e não como vítimas. Como nunca havia participado de uma cobertura como esta, debateram bastante como poderiam criar até mesmo um manual para cobrir futuros abusos.




O padrão das denúncias feitas pelas mulheres que sofreram o abuso foi o que chamou a atenção das jornalistas Helena Borges e Cristina Fibe, do jornal O Globo. Elas foram as primeiras a notarem que havia algo errado com o centro espírita Casa Dom Inácio de Loyola, do então líder religioso João de Deus.

Em 2018, Borges seguiu até Abadiânia (GO), onde se localiza o centro espírita, com o objetivo de mostrar porque o lugar era considerado sagrado por tantos fiéis e o que havia de especial que fazia com que pessoas de todas as partes do mundo visitassem o local e seu líder. 

A jornalista percebeu que haviam coisas incomuns acontecendo na cidade. “Quando comecei a fazer perguntas mais incisivas [sobre o centro e o líder João de Deus] as pessoas demonstravam medo de falar”, relata Borges. Foi então que, a partir de rumores sobre o que se passava nas sessões espirituais coordenadas pelo médium, começou a aparecer diversas denúncias de abusos sexuais, e a apuração do caso teve início.

Paralelamente, os jornalistas Pedro Bial e a roteirista de seu programa na TV Globo Camila Appel, também fizeram uma investigação. Assim como aconteceu com Helena e Cristina, o caso se desencadeou a partir de uma denúncia feita por uma mulher que frequentava constantemente a Casa Dom Inácio de Loyola. “Foi trilha certa, os relatos eram todos parecidos, a sala para onde as levava, o que ele falava, o que fazia…”, explica Camila.

“O primeiro relato tinha sido feito por uma holandesa, e o que mais me chamou atenção foi ver que haviam diversas marcações de brasileiras nos comentários”, conta Helena a respeito da publicação feita por Zahira Lieneke Mous em seu facebook, expondo o trauma sofrido em 2014 no centro espírita. 

Uma das partes importantes da reportagem para Cristina Fibe, foi a necessidade de ter repórteres mulheres na investigação, em contato com as vítimas, “uma mulher para falar o que aconteceu revive o trauma, e ao ser entrevistada por homens tendem a se sentirem acuadas”, e complementa “uma dá coragem a outra para falar”. 

Segundo Helena Borges, algumas das vítimas não tinham a consciência de que haviam sido abusadas, muitas achavam que os procedimentos feitos eram parte do processo de cura, desacreditando do ato violento. 

Além de um grande medo de retaliação, existia também o sentimento de vergonha, culpa e perseguição espiritual, as impedindo de fazer as denúncias. “Elas tinham medo de serem julgadas”, conclui Camila.

Após o início da investigação mais de 600 mulheres, com idade entre 9 e 67 anos, denunciaram o líder religioso João de Deus por crimes sexuais nos últimos vinte anos. “Entender a importância do seu trabalho, o que a gente está fazendo aqui afeta a vida do outro.” conclui a jornalista Helena Borges.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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