29/06/2019

Cobertura das Forças Armadas: um novo desafio para o jornalismo

Assim como os militares estão aprendendo a lidar com os repórteres, os jornalistas também estão aprendendo a lidar com a categoria 

Repórter: Luana Dias 
Editor: André Catto e Cristiane Paião

Marcelo Godoy (Estadão) e Igor Gielow (Folha de S. Paulo) - Foto: Ariadne Mussato
Para Igor Gielow, da Folha de S. Paulo se político é “que nem bife, quanto mais você bate, mais macio ele fica”, militares não funcionam da mesma forma. A expressão "bater", no jornalismo, tem significado parecido com o de criticar, denunciar, abordar ou noticiar de forma mais enfática ou agressiva. “Se você bate muito em um militar, ou ele vai bater de volta ou simplesmente você perdeu o cara”, destaca Gielow. Segundo ele, aqui no Brasil, os dois lados ainda estão aprendendo a lidar com a chamada cultura democrática. “É um processo que ainda vai demorar para fechar”, conclui. 
Junto a Gielow estava Marcelo Godoy, jornalista do Estadão. Acostumados a cobrirem as Forças Armadas, eles defendem que, antes de lidar com os militares, os jornalistas devem pesquisar a história deles. “A primeira coisa é compreender as motivações. Você cria, por meio dos marcos referenciais dos militares, um nível de previsibilidade de como ele vai reagir a determinado tema e ao seu trabalho como jornalista”, afirma Godoy. 

Para ajudar nessa missão, o jornalista do Estadão sugeriu a leitura de alguns livros, dentre eles o de Sergio Murillo Exercito e Política no Brasil. Além disso, ele propõe: “Se você quiser cobrir forças armadas, você precisa estar presente no maior número de eventos deles. Isso também é importante para quebrar essa barreira de assessoria das forças armadas, que é muito quadrado”.  

Gielow indica também que outro caminho possível para se aproximar desse universo e encontrar fontes é frequentar espaços e instituições militares, como os clubes e escolas, e identificar os atores principais desses locais. A partir daí, é possível compreender a relação deles com pessoas que estão no poder e quais são as ligações entre elas.  

Godoy acrescenta à isso a necessidade de ter precisão com o que é relatado no texto. “São pessoas muito sensíveis à palavra escrita. Se preocupe muito com isso, porque é muito difícil fazer fonte, mas é muito fácil perder”. 

Os repórteres insistem no fato de que, assim como os jornalistas estão aprendendo a lidar com a os militares, eles também estão aprendendo a lidar com a categoria porque, por muito tempo, por exemplo, o exército esteve distante do radar jornalístico. “Existe essa incompreensão dupla. Eles têm preconceito, nós temos preconceito. Então, você tem que tentar romper uma barreira difícil de ser rompida”, aponta Gielow.   

Diante do cenário político atual, há preocupação de grupos sociais com um possível golpe militar. Quanto a isso, Godoy evidencia: “Ninguém toma o poder de quem já tá no poder. Já estão no poder, então para quê? Eles já chegaram lá”.  

Godoy também reforçou a importância da Lei de Acesso à Informação (LAI) para a cobertura das Forças Armadas. “É preciso trabalhar com a LAI e saber os artigos da lei. Se alguma informação relacionada à violação dos Direitos Humanos estiver sob sigilo, você pode recorrer que irá ganhar”, em referência a pedidos recusados inicialmente.  

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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