03/07/2015

Brio e #JornalistasLivres: apostas para superar a crise do mercado jornalístico

por Jeniffer Mendonça

Foto: Isabel Flávia da Silva
O índice dos chamados "passaralhos" em grandes empresas só aumenta. De 2012 a junho de 2015, foram contabilizadas cerca de 1.084 demissões de jornalistas em pelo menos 50 redações de acordo com o projeto Volt Data Lab. Os números assustam quem segue na área, mas se tornam também uma alavanca para a procura de novas alternativas. "Em meio a esse crise, as plataformas em rede são o futuro para o jornalismo independente", disse o jornalista Matheus Leitão em palestra ao 10°. Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.


"O Brio abriu uma nova janela: recuperar a grande reportagem de forma moderna", explicou o jornalista ao contar que o site possibilitou a publicação de uma investigação que ele realizou há mais de 15 anos sobre a perseguição da ditadura aos seus próprios pais - Miriam Leitão e Marcelo Netto. O jornalista disse que o contato com o chamado "self journalism", por meio de estudos na UC Berkeley, entre 2011 e 2012, foi a única maneira para abordar a história do delator de seus próprios pais nos anos de chumbo, sem os impedimentos impostos pelo formato tradicional de redação jornalística.

Apesar da reportagem intitulada 'A espera' estar ligada à história da família, Leitão afima que "deixou de ser o filho para ser o jornalista" ao procurar ouvir o posicionamento de Foedes dos Santos, após anos de procura pelo líder comunista do Espírito Santo que se converteu num dos maiores delatores colaboracionistas com a ditadura. Para ele a transparência é a base do jornalismo independente e a plataforma multimídia proporciona uma imersão do leitor por meio do contraste entre texto e vídeo.
Com passagens por veículos como Correio Braziliense, Folha de S.Paulo, revista Época e portal iG, Matheus Leitão enfatiza a necessidade de experimentação no jornalismo. A plataforma Brio proporciona reportagens gratuitamente, mas também se direciona ao pagamento de conteúdo online, em que cada publicação equivale a R$ 3,99, divididos entre o site e o repórter.

#JornalistasLivres

A jornalista Laura Capriglione colocou em xeque a cobertura da imprensa tradicional à dimensão de movimentos como as Jornadas de Junho de 2013. Para ela, a inquietação das ruas demonstrou uma "crise de representatividade" na mídia. "As pessoas passaram a questionar a isenção do jornalismo", opinou.


Foto: Isabel Flávia da Silva
Para Laura, "a ocupação das redes é a alavanca necessária para a diversificação de vozes" no jornalismo. Com passagens pela Folha de S.Paulo e revista Veja, ela afirmou que a profissão apresenta o caráter participativo e pessoal do autor e, portanto, "é legítimo se posicionar, desde que seja de forma transparente".

Como uma das fundadoras do Coletivo Jornalistas Livres, Laura explicou que o coletivo surgiu para fazer uma "contra-narrativas" do protesto do dia 15 de março de 2015 em relação à pautada pela imprensa tradicional. "A TV não viu que o personagem herói do ato era o torturador braço direito do [policial do DOPS Sérgio] Fleury", criticou, em referência à falta de visibilidade da participação do ex-agente da ditadura Carlos Metralha nos protestos.

A utilização das redes, embora cause dúvidas em relação ao financiamento, para a jornalista, é um meio de potencializar a difusão de conteúdo por meio da colaboração entre segmentos de mídias. A ideia, para ela, é qualificar a captação da realidade por meio de oficinas e troca de experiências, unindo "as técnicas de jornalismo com o ímpeto juvenil das redes".

Com uma campanha de arrecadação lançada na plataforma Catarse, o intuito dos Jornalistas Livres é expandir as coberturas para outras localidades e incentivar o registro local, garantindo que os profissionais consigam receber um salário digno, apesar de menor em comparação a grandes redações.
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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