03/07/2015

Jornalistas experientes discutem seus maiores erros na imprensa

Por Isabel Silva


Nem mesmo a experiência de décadas de reportagem é capaz de livrar jornalistas consagrados de deslizes no noticiário. Superestimar e subestimar as avaliações estão entre os erros mais comuns dos profissionais que compartilham suas experiências na mesa "Ooooops! O que grandes jornalistas aprenderam com seus grandes erros", do 10° Congresso de Jornalismo Investigativo, hoje.

Para William Waack, âncora do Jornal da Globo, um dos principais erros que ele já cometeu foi subestimar a força que as ideias tem na cabeça das pessoas. O jornalista confessa que subestimou a força da religião e de determinados segmentos nacionalistas em alguns dos principais acontecimentos internacionais que cobriu.

Outro jornalista com experiência internacional, Roberto Lameirinhas, editor de Internacional e enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo, concordou com a avaliação. Ele mencionou episódios na Venezuela, onde sofreu um sequestro relâmpago, e na Bolívia, onde confiou demais numa fonte responsável por lhe passar uma "barriga" - jargão usado nas redações para se referir a uma notícia errada.


O terceiro expositor, Bruno Paes Manso, da Ponte Jornalismo, premiado com o Prêmio Vladimir Herzog de melhor livro reportagem de 2006 pelo livro O Homem X - Uma reportagem sobre a alma do assassino em SP, contou uma experiência marcante na qual, após entrevistar matadores de aluguel, ficou sabendo que os homens sairiam para cometer mais um homicídio. O repórter ficou dividido entre chamar a polícia ou guardar a informação.

Os jornalistas também comentaram o uso das ferramentas digitais para auxiliarem o fazer jornalístico. Waack acredita que é importante discutir o relacionamento do meio eletrônico com as redes sociais. "As redes sociais são mais uma ferramenta que auxilia a exercer a profissão do jornalista. O grande erro nosso, hoje é atribuir à instância externa decisões que cabem à consciência profissional jornalística".

As redes sociais também amplificam hoje o alcance dos erros e os tornam "eternos" quando viram meme e juntam milhares de comentários, ampliando o alcance dos deslizes. "A rede social pauta algumas coisas para ela mesma se alimentar disso", afirma Lameirinhas. Bruno ressalta que a comoção nas redes sociais podem levar as pessoas a "chutar a cabeça de que já está no chão" e a pressão em cima do jornalista é muito grande porque se você não segue o que está nas redes sociais, sua credibilidade é criticada.

Apesar do risco constante de cometer erros, os três membros da mesa coincidiram na defesa da autonomia. Para eles, correr riscos e errar é parte indissociável da profissão. "O repórter necessita da sua autonomia para exercer a atividade jornalística. É uma decisão no momento mais quente da cobertura, da qual você não pode ser omitir", afirma Lameirinhas.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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