04/07/2015

'Liberdade não pode existir apenas para uma categoria de pessoa', diz sobrevivente do Charlie Hebdo

Por Natacha Mazzaro

Foto: Phillippe Watanabe
O chargista Laurent Sourisseau, um dos sobreviventes do ataque  ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos e 11 feridos, em janeiro, em Paris, disse hoje que o atentado não foi apenas contra os profissionais que fizeram desenhos sobre o Islâ e Maomé, mas contra a democracia e a liberdade em si. Cercado de um forte esquema de segurança, Sourisseau falou a jornalistas que participam do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, em São Paulo.

"Fazer humor é algo extremamente sensível. Quando se fala em Islã, pior ainda", disse o cartunista, conhecido como Riss, aos estudantes e jornalistas presentes. "O Charlie Hebdo pagou um preço alto por isso."

Atual diretor do jornal, Riss contou que não costumava haver problemas com os desenhos sobre islamismo que o Charlie Hebdo veicula desde os anos 1990, mas que as charges sobre Maomé publicadas em 2006 nunca foram perdoadas. Para ele, o ódio de extremistas motivou os dois atentados que o jornal sofreu: O primeiro, em 2011, incendiou a redação e o último, em janeiro de 2015, resultou na morte de 12 pessoas, incluindo 8 integrantes da equipe.

O ataque aconteceu durante uma reunião de pauta do jornal. Dois terroristas entraram na sala e começaram a atirar. Riss, ao ver a porta da sala abrir, jogou-se no chão. Levou um tiro no ombro, mas prendeu a respiração e fingiu-se de morto. Foi assim que o cartunista saiu com vida, ao contrário de seus amigos e ícones do desenho francês: Wolinski, Cabu, Honoré, Tignous e Charb, o antigo diretor. A organização terrorista Al-Qaeda se responsabilizou pelo atentado e os autores foram identificados como os irmãos Cherif e Said Kouachi.




O cartunista defendeu o trabalho do Charlie Hebdo, alvo de críticas por sua linguagem satírica. "A caricatura é muito mais do que ela mesma, por isso ela é importante para a democracia". Ele explica que o jornal não tem o interesse de fazer desenhos unicamente sobre o Islã ou Maomé, mas sim, tem a liberdade de abordar esses assuntos se os fatos da atualidade exigirem.

"A liberdade não pode existir apenas para uma categoria de pessoa. Ela existe para todos. Se as pessoas não a exercem, a liberdade desaparece." Para ele, outros veículos usam pouco o tipo de humor do Charlie Hebdo. "Nos sentimos isolados. Sobre Maomé, somos os únicos".

Desde sua criação, o jornal segue dois princípios: anticlerical e ateu. Riss explica que os religiosos, muitas vezes, não entendem e levam para o lado pessoal. Ele disse que não pode haver confusão entre a crítica à religião e as pessoas que a seguem.

Ele ainda se recupera de alguns danos causados pelo atentado. Quando perguntado se estava otimista para o futuro, Riss não pensa duas vezes antes de responder. "Não. É preciso manter aqui uma cara de otimista, mas no fundo não estamos."

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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