03/07/2015

Caso Nisman revela embate entre imprensa e governo na Argentina

Por Juliana Domingos de Lima

Foto: Gabi Bernd
No início de 2015, o assassinato do promotor argentino Alberto Nisman era um caldo em ebulição que prometia transbordar: horas antes de prestar um depoimento que implicaria o governo Kirchner num suposto acordo com o Irã para acobertar o atentado contra Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, em 1994, Nisman foi encontrado morto com um tiro na cabeça em seu apartamento. Jorge Lanata, jornalista-celebridade do Clarín, descreveu uma série de procedimentos que sucederam a morte e explicam por que o transbordo do caldo não aconteceu. Segundo Lanata, a polícia argentina esperou 4 horas para entrar no apartamento e alguém teve a ideia de buscar a mãe do promotor, a 40 km do local, para abrir a porta do local do crime, procedimentos muito incomuns logo após um assassinato.


O jornalista acredita na hipótese do homicídio porque, até agora, não há resultado definitivo da autópsia - "é provável que nunca se saiba o que aconteceu, porque as evidências foram contaminadas", diz. O vídeo da perícia na cena do crime, exibido pelo jornalista, foi um furo de seu programa na TV argentina, Periodismo para todos, mostra um tratamento irregular das provas que foram manipuladas sem luvas. Além disso, a arma dos crime foi limpa antes de ser analisada. A presença uma pequena multidão no local, que, além da perícia, incluía pessoal dos órgãos de inteligência e o secretário de segurança, também teria causado um tumulto capaz de inutilizar evidências.

Jorge Lanata também coloca em dúvida a denúncia de Nisman, que deflagrou todo o caso. Contextualizou o promotor como alguém publicamente vinculado à embaixada americana, informação que posiciona seu alinhamento político como contrário ao governo argentino, e disse ainda que recebera a notícia de que perderia o cargo na Promotoria, por conta de reformas na Justiça. Lanata pontua que é neste momento que Alberto Nisman "saca" sua acusação de que o governo estava acobertando as investigações de um atentado em troca de um acordo comercial com o Irã.

Além da conduta peculiar das autoridades que seguiram a morte de Nisman, o jornalista falou da campanha moral contra o promotor e sua imagem iniciada a partir daí: começaram a surgir fotos com garotas e contas no exterior, produtos típicos, para Lanata, de operações de inteligência. Em 2013, Julian Assange declarou que a Argentina tem o regime de vigilância mais agressivo dos países latino-americanos médios, agressividade ligada à herança do período ditatorial.

Para Lanata, o escândalo da morte preveniu um escândalo maior. Sem resultado conclusivo da autópsia, o caldo encolheu na panela e não chegou a espirrar na popularidade de Kirchner - a mediadora da mesa, Daniela Pinheiro, observou que a aceitação da presidente caiu apenas dois pontos no auge do caso, o que Lanata explica por não se tratar de uma questão econômica, estas sim capazes de afetar seriamente a popularidade de um presidente. Um resultado da autópsia encomendado nos Estados Unidos vai ao ar no programa de TV de Lanata neste domingo.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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